Publicado em 13 de outubro de 2026 às 18:53
O Brasil está cada vez mais perto dos Estados Unidos na disputa pela liderança agrícola mundial. O avanço brasileiro é resultado de investimentos em pesquisa, modernização das lavouras e expansão da produção, fatores que consolidaram o país como um dos principais fornecedores de alimentos do planeta. A avaliação é de Larissa Wachholz, ex-assessora do Ministério da Agricultura e especialista nas relações entre Brasil e China.>
De janeiro a setembro de 2026, as exportações do agronegócio brasileiro alcançaram US$ 133,6 bilhões, alta de 5,5% em comparação com o mesmo período de 2025, segundo dados do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). O desempenho evidencia o peso do setor para a economia nacional e sua capacidade de atender à demanda de diferentes mercados internacionais.>
A diferença entre Brasil e Estados Unidos também foi pequena no ano passado. Em 2025, as exportações brasileiras do agronegócio somaram US$ 169,2 bilhões, enquanto as norte-americanas chegaram a US$ 171,5 bilhões. A distância foi de cerca de US$ 2,3 bilhões. A comparação, porém, precisa considerar que os dois países podem utilizar critérios distintos para classificar e contabilizar as vendas externas do setor.>
Parte do crescimento brasileiro está relacionada à evolução das técnicas agrícolas. Ao longo das últimas décadas, pesquisas permitiram adaptar cultivos às condições de solo e clima do país, ampliando as possibilidades de produção em regiões como o Cerrado, que hoje tem papel importante no abastecimento interno e nas exportações.>
A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) contribuiu para esse processo com estudos voltados ao desenvolvimento de variedades mais adaptadas, ao manejo do solo e ao aumento da produtividade. A mecanização e o uso de novas ferramentas no campo também ajudaram produtores a melhorar o rendimento das lavouras.>
Essa transformação permitiu ampliar a oferta de grãos e outras commodities, fortalecendo a presença brasileira no comércio internacional. Além da soja, o país tem participação expressiva nas exportações de milho, café, açúcar e carnes, produtos que abastecem diferentes cadeias de consumo e de produção em outros países.>
China fortalece o mercado brasileiro>
A China ocupa posição estratégica nesse cenário, por estar entre os principais destinos dos produtos agropecuários brasileiros. A demanda chinesa por soja, carnes e outras matérias-primas agrícolas contribui para sustentar as vendas externas e influencia o desempenho de segmentos importantes do setor.>
As disputas comerciais entre Pequim e Washington também podem criar oportunidades para o Brasil. Quando tarifas e restrições afetam as negociações entre as duas potências, compradores chineses podem recorrer a outros fornecedores para garantir o abastecimento. Com capacidade de produção em larga escala, o mercado brasileiro pode se beneficiar dessas mudanças.>
Essa oportunidade, no entanto, vem acompanhada de riscos. Uma eventual redução das compras chinesas, alterações nas regras de importação ou mudanças nos preços internacionais podem afetar diretamente os exportadores nacionais. Por isso, ampliar a presença em outros mercados é uma alternativa para reduzir a dependência de um número limitado de compradores.>
Infraestrutura ainda é um obstáculo>
Mesmo com o avanço das exportações, problemas de transporte e armazenamento continuam entre os desafios do agronegócio. O deslocamento da produção das regiões agrícolas até os portos pode elevar os custos, principalmente durante o escoamento das safras, quando a demanda por transporte aumenta.>
A ampliação e a modernização de rodovias, ferrovias, hidrovias e portos podem tornar esse processo mais eficiente. A falta de espaço adequado para armazenar grãos também exige atenção, já que limita a capacidade dos produtores de organizar a comercialização e escolher o melhor momento para vender.>
A melhoria da infraestrutura pode ajudar a reduzir despesas e tornar os produtos brasileiros mais competitivos no exterior. Em um mercado disputado por grandes produtores, a eficiência logística é um fator importante para transformar o potencial agrícola em melhores resultados comerciais.>
Exigências ambientais ganham importância>
Outro ponto que influencia o futuro do setor é a necessidade de conciliar produção e preservação ambiental. Compradores internacionais têm ampliado a atenção à origem das mercadorias, às condições de cultivo e ao cumprimento de normas ambientais. Nesse contexto, a rastreabilidade da produção pode ajudar empresas brasileiras a manter contratos e acessar novos mercados.>
O desafio inclui combater o desmatamento ilegal, recuperar áreas degradadas e melhorar o aproveitamento das terras já utilizadas. Essas medidas podem contribuir para aumentar a eficiência da atividade agrícola sem ampliar desnecessariamente a pressão sobre os recursos naturais.>
A proximidade entre Brasil e Estados Unidos mostra a força do agronegócio nacional, mas a liderança mundial não pode ser medida apenas pelo valor das exportações. A comparação também depende dos critérios adotados, da variedade de produtos comercializados e da capacidade de cada país de manter uma produção competitiva.>
Para sustentar o crescimento, o Brasil terá de continuar investindo em pesquisa, infraestrutura e abertura de mercados, além de responder às exigências ambientais e sanitárias do comércio internacional. O desempenho dos próximos anos dependerá da capacidade de transformar os resultados atuais em uma posição duradoura no mercado global de alimentos.>