Publicado em 26 de março de 2026 às 17:33
Os médicos do Hospital Pediátrico Cardiocêntrico William Soler, em Havana, enfrentam dilemas dramáticos ao serem forçados a decidir quais crianças recebem primeiro tratamentos vitais e quais devem aguardar. A unidade, que é a única do tipo no país, vive uma situação de "níveis dramáticos" devido à falta de medicamentos, insumos básicos e equipamentos em funcionamento.>
Embora a escassez de recursos seja um problema antigo, o cenário se agravou drasticamente desde janeiro de 2026, quando o governo de Donald Trump impôs um bloqueio petrolífero à ilha. A crise foi aprofundada pela interrupção do fornecimento de petróleo da Venezuela, ocorrida após a queda de Nicolás Maduro no mesmo período. Como consequência, o país enfrenta apagões constantes que afetam até mesmo os serviços essenciais.>
Atualmente, o hospital dispõe de 100 leitos, mas nem todos são utilizados porque os médicos precisam racionar materiais para os casos de risco iminente. Segundo a cardiologista Herminia Palenzuela, de 79 anos, crianças com diagnósticos menos graves acabam ficando "no fim da lista, simplesmente esperando".>
Dados do Ministério da Saúde indicam que o impacto é generalizado: mais de 96.000 cubanos aguardam por cirurgias; deste total, 11.000 são crianças; muitos profissionais de saúde precisam caminhar quilômetros para chegar ao trabalho devido à falta de transporte.>
Para tentar conter a deterioração do sistema, Cuba recebeu recentemente 50 toneladas de ajuda humanitária, incluindo alimentos e produtos de higiene, enviadas por uma flotilha do México e ativistas italianos. Paralelamente, a ONU anunciou um plano emergencial de US$ 94,1 milhões (aproximadamente R$ 496 milhões) focado na importação de combustível para manter hospitais e serviços básicos operantes. Francisco Pichón, coordenador da ONU no país, alertou que, caso as reservas de combustível se esgotem totalmente, há um risco real de perda acelerada de vidas.>
Texto por Suellen Godinho, com supervisão de Cássio Leal.>