EUA querem classificar PCC e CV como terroristas

Governo brasileiro vê risco à soberania e tenta barrar proposta de Washington antes da reunião entre os presidentes.

Publicado em 10 de março de 2026 às 12:13

EUA querem classificar PCC e CV como terroristas
EUA querem classificar PCC e CV como terroristas Crédito: Créditos/Ricardo Stuckert/PR STUCKERT/PR

A possível classificação das facções brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas internacionais pelo governo dos Estados Unidos acendeu um alerta no governo brasileiro e pode se tornar um dos principais temas de discussão em um futuro encontro entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump.

Inicialmente prevista para março, a reunião entre os dois líderes ainda não tem data definida. O desencontro de agendas e o início da guerra no Irã acabaram adiando o encontro.

A proposta em discussão em Washington faz parte de uma estratégia mais ampla dos EUA para combater o tráfico internacional de drogas na América Latina. Na prática, a classificação do Primeiro Comando da Capital e do Comando Vermelho como organizações terroristas poderia abrir brechas para ações mais duras de combate ao crime organizado, inclusive com possíveis operações internacionais.

Nos bastidores, o governo brasileiro demonstra preocupação com o impacto da medida. A avaliação é de que a classificação poderia abrir precedentes para interferências externas em território nacional.

Especialistas também questionam o enquadramento das facções brasileiras como grupos terroristas. Segundo o especialista em relações internacionais e reitor da Universidade Católica de Brasília, Manuel Furriela, esse tipo de classificação exige características que não estariam presentes nas organizações criminosas brasileiras.

“Internacionalmente falando, a determinação de que certos grupos são terroristas depende também de requisitos como, por exemplo, de que esses grupos tenham viés político, pretensões de tomada de poder para mudança de grupos ou para mudança do país em caráter revolucionário para que haja uma mudança substancial. Não é o caso de organizações criminosas comuns, que praticam crimes para ter rendimento econômico e, na ilegalidade, têm os seus ganhos”, explica Manuel Furriela.

Diante do avanço da discussão nos Estados Unidos, o governo brasileiro já iniciou articulações diplomáticas para tentar evitar a medida. No último domingo (8), o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, tratou do assunto por telefone com o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio.

Até o momento, não está confirmado se o tema será discutido oficialmente no encontro entre Lula e Trump, que deve ocorrer nos próximos meses em Washington. Ainda assim, analistas apontam que o assunto deve entrar na pauta da conversa entre os dois líderes.

“Há uma chance significativa de que o tema apareça na conversa. O combate ao crime organizado transnacional vem ganhando peso na agenda hemisférica dos Estados Unidos e já entrou nas discussões diplomáticas preliminares entre os dois países. A tendência é que o Brasil procure tratar o assunto dentro de uma lógica de cooperação, e não de enquadramento unilateral”, explica o especialista em risco político Eduardo Galvão.

Em fevereiro, Lula já havia mencionado a intenção de discutir propostas de combate ao crime organizado e ao tráfico internacional de drogas durante o encontro com Trump, reforçando que o tema deve ganhar espaço nas negociações entre os dois países.