Publicado em 5 de setembro de 2026 às 14:14
Um homem de 66 anos conseguiu viver durante 271 dias com um rim de porco geneticamente modificado, sem precisar passar por sessões de diálise. O resultado é considerado um dos principais avanços recentes na área de transplantes e pode abrir caminho para o uso de órgãos de animais como alternativa temporária enquanto pacientes aguardam um doador humano.>
O paciente é o norte-americano Tim Andrews, que sofria de insuficiência renal em estágio avançado provocada por diabetes tipo 2. Antes do procedimento, ele enfrentava a necessidade de diálise e tinha poucas perspectivas de conseguir rapidamente um órgão humano compatível.>
O transplante do rim suíno foi realizado em janeiro de 2025, no Mass General Brigham, nos Estados Unidos. O órgão havia sido geneticamente modificado para diminuir as chances de rejeição pelo organismo humano e reduzir riscos relacionados à transmissão de agentes infecciosos.>
ESTUDO TEVE PARTICIPAÇÃO DE BRASILEIRO>
A pesquisa contou com a participação do médico brasileiro Leonardo Riella, diretor médico de transplante renal do Mass General Brigham e professor da Harvard Medical School.>
O trabalho foi publicado na revista científica “The Lancet” e descreve a experiência de Andrews como o período mais longo já registrado de sobrevivência sem diálise após um xenotransplante renal em um paciente vivo.>
O termo xenotransplante é utilizado para definir o transplante de órgãos ou tecidos entre espécies diferentes. Neste caso, um órgão suíno foi utilizado em um ser humano.>
RIM FUNCIONOU POR NOVE MESES>
Durante os 271 dias, o rim de porco conseguiu desempenhar funções essenciais, como filtrar o sangue e produzir urina, permitindo que Andrews permanecesse sem diálise durante praticamente nove meses.>
O órgão, porém, começou a apresentar problemas após aproximadamente seis meses. Os médicos identificaram alterações nos pequenos vasos sanguíneos e um processo inflamatório que evoluiu para perda progressiva da função renal.>
Segundo os pesquisadores, também houve um episódio inicial de rejeição mediada por células do sistema imunológico, que foi controlado com tratamento. Não foram identificadas evidências de transmissão de agentes patogênicos do porco para o paciente.>
DO RIM DE PORCO PARA O RIM HUMANO>
Depois que o órgão suíno deixou de funcionar adequadamente, os médicos retiraram o rim e Andrews voltou temporariamente à diálise.>
Em janeiro de 2026, cerca de três meses depois, ele recebeu um rim humano de um doador falecido. O novo órgão apresentou funcionamento imediato e, durante o acompanhamento relatado pelos pesquisadores, não houve sinais de que o transplante suíno anterior tivesse impedido o funcionamento do rim humano.>
O caso é considerado particularmente importante porque demonstra, pela primeira vez, a possibilidade de utilizar um órgão animal como uma espécie de “ponte” para manter um paciente vivo e fora da diálise até que apareça um órgão humano compatível.>
UMA POSSÍVEL ALTERNATIVA PARA A FALTA DE ÓRGÃOS
>
Para os pesquisadores, um dos grandes desafios dos transplantes atualmente é justamente a escassez de órgãos humanos disponíveis.>
A ideia é que, no futuro, rins de animais geneticamente modificados possam ser utilizados inicialmente como uma solução temporária para pacientes que aguardam um transplante humano. Com o avanço das pesquisas, a possibilidade de utilização desses órgãos como tratamento definitivo também poderá ser estudada.>
Apesar do resultado considerado histórico, os especialistas ressaltam que a técnica ainda está em fase experimental. O caso de Andrews envolve um único paciente e não significa que os transplantes de rins de porco já estejam prontos para serem utilizados de forma ampla na medicina.>
Os pesquisadores ainda precisam avaliar a segurança, a durabilidade dos órgãos e a resposta imunológica em um número maior de pacientes antes que a técnica possa se tornar uma alternativa convencional aos transplantes tradicionais.>
AVANÇO HISTÓRICO>
O resultado representa um novo passo na tentativa de superar um dos maiores obstáculos da medicina de transplantes: a falta de órgãos disponíveis.>
A experiência de Tim Andrews mostrou que um rim suíno geneticamente modificado pode manter um ser humano sem diálise por 271 dias e, posteriormente, permitir a transição para um transplante humano bem-sucedido.>
Para os cientistas, o objetivo agora é descobrir como prolongar a vida útil desses órgãos e tornar o procedimento cada vez mais seguro e previsível.>
Texto por Pedro Moraes, com a supervisão de Adrielle Brito.>