Leão XIV completa um ano de pontífice unindo ritos antigos e críticas às potências

Primeiro pontífice americano da história equilibra o retorno à tradição litúrgica com um embate direto contra Donald Trump e a defesa do "direito de não emigrar" em suas viagens globais

Elias Cavalcante

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Publicado em 8 de maio de 2026 às 13:52

Primeiro pontífice americano da história equilibra o retorno à tradição litúrgica com um embate direto contra Donald Trump e a defesa do "direito de não emigrar" em suas viagens globais
Primeiro pontífice americano da história equilibra o retorno à tradição litúrgica com um embate direto contra Donald Trump e a defesa do "direito de não emigrar" em suas viagens globais Crédito: Reprodução 

Nesta sexta-feira (8), o papa Leão XIV completa seu primeiro ano de pontificado, consolidando uma liderança que mistura o rigor técnico de um governante com a sensibilidade de um mediador de conflitos.

Robert Francisco Prévost, que assumiu o comando da Igreja Católica em maio de 2025 após a morte de Francisco, celebrou a data no sul da Itália, reforçando que sua gestão não será marcada pelo silêncio. Em 12 meses, ele provou ser um líder que, embora prefira o Palácio Apostólico e as missas em latim, não hesita em enfrentar a Casa Branca para defender a paz mundial.

O ponto mais marcante deste primeiro ano foi a deterioração da relação entre o Vaticano e o governo de Donald Trump. O que começou como uma cautela diplomática tornou-se um embate público. Leão XIV classificou como "inaceitáveis" as ameaças militares dos EUA contra o Irã e criticou duramente o comércio de armas, o que levou Trump a chamá-lo de "fraco" e "terrível para a política externa". Sem recuar, o papa respondeu que "nenhuma potência terrena salvará o mundo" e que continuará pregando o Evangelho contra a guerra, ocupando hoje o posto de uma das vozes mais críticas ao governo americano no cenário internacional.

Internamente, Leão XIV trouxe um estilo que lembra o rigor intelectual de Bento XVI. Ele retomou o uso do Palácio Apostólico para moradia e reintroduziu gestos litúrgicos tradicionais que haviam sido deixados de lado. No entanto, engana-se quem pensa que ele ignora as pautas sociais de seu antecessor.

Em sua viagem histórica pela África (passando por Argélia, Camarões e Angola), o papa mudou a narrativa sobre a crise migratória ao defender que os jovens devem ter condições de prosperar em suas próprias terras, denunciando o saque de recursos naturais pelo sistema econômico global.

Para além das viagens e dos conflitos políticos, o papa tem focado na organização da Igreja. Ele convocou reuniões frequentes com cardeais para ouvir diferentes alas do clero, tentando reduzir as rupturas dramáticas entre progressistas e conservadores. O próximo grande passo de sua agenda inclui a publicação de uma encíclica sobre inteligência artificial, tema que deve gerar novos debates com as gigantes de tecnologia dos EUA.

Para encerrar o ciclo deste primeiro ano, Leão XIV marcou uma visita simbólica à ilha de Lampedusa para o dia 4 de julho. A escolha da data o dia da independência dos Estados Unidos é lida por vaticanistas como um lembrete silencioso e poderoso de que, para o primeiro papa americano, a liberdade de um povo não pode ser celebrada enquanto outros são forçados a fugir da fome e da guerra.