Pastor é condenado por mortes de 191 pessoas em tragédia da 'seita do jejum' no Quênia

Mais de 400 corpos foram encontrados em uma floresta onde seguidores eram incentivados a jejuar até morrer.

Publicado em 20 de outubro de 2026 às 14:12

 - Atualizado há uma hora

Pastor é condenado pela morte de 191 pessoas em tragédia da 'seita do jejum' no Quênia
Pastor é condenado pela morte de 191 pessoas em tragédia da 'seita do jejum' no Quênia Crédito:  Simon Maina/Getty Images

O caso liderado pelo pastor Paul Mackenzie chocou o Quênia e ganhou repercussão internacional após a descoberta de centenas de corpos na floresta de Shakahola, na região costeira do país. Nesta segunda-feira, dia 19 de outubro de 2026, a Justiça condenou o religioso e outros 28 réus pelo assassinato de 191 pessoas, das quais 190 eram crianças. Segundo as investigações, os seguidores eram incentivados a passar fome sob a promessa de que encontrariam Jesus e alcançariam a salvação.

A decisão foi anunciada mais de três anos depois do início das buscas pelos corpos, em 2023. Ao todo, mais de 400 vítimas foram encontradas durante as escavações na floresta. O caso levantou questionamentos sobre a atuação das autoridades, já que Mackenzie havia chamado a atenção da polícia antes de a dimensão da tragédia vir à tona.

Justiça apontou sistema organizado de jejuns extremos

Durante o julgamento, Mackenzie negou ter obrigado os seguidores a passar fome. A defesa argumentou que os fiéis agiram de acordo com as próprias crenças religiosas, mas a Justiça considerou que havia um sistema organizado por trás das mortes.

A decisão judicial apontou que os jejuns seguiam uma hierarquia, na qual as crianças estavam entre as primeiras pessoas submetidas à privação de alimentos. Integrantes responsáveis pela segurança também teriam ajudado a controlar a comunidade e dificultar a saída dos seguidores.

As investigações revelaram ainda que a fome não foi a única causa das mortes. Exames realizados nos corpos identificaram sinais de estrangulamento e lesões compatíveis com agressões físicas em algumas vítimas. As provas reunidas durante o processo foram utilizadas para estabelecer a responsabilidade dos acusados.

Como o pastor atraiu famílias para a seita

Mackenzie fundou a Good News International Church em 2003. Ex-motorista de táxi, ele conquistou seguidores com pregações sobre o fim do mundo e ampliou sua influência por meio de uma emissora de televisão e de plataformas digitais.

Em seus sermões, o religioso defendia mudanças radicais no cotidiano dos fiéis como forma de preparação para o fim dos tempos. A educação formal era condenada, os tratamentos médicos eram rejeitados por motivos religiosos e documentos digitais de identidade eram associados a símbolos demoníacos.

Depois do fechamento da igreja principal, em 2019, Mackenzie passou a reunir seguidores na floresta de Shakahola. No local, famílias viviam em construções simples e seguiam as orientações do pregador, incluindo períodos prolongados de jejum. A promessa de salvação espiritual contribuiu para manter os integrantes sob a influência do grupo.

O caso veio à tona em abril de 2023, quando as autoridades iniciaram escavações na floresta após receberem denúncias. As buscas revelaram centenas de corpos enterrados em covas rasas, incluindo os de bebês e crianças.

O avançado estado de decomposição dificultou a identificação de muitas vítimas. Segundo informações atribuídas à Reuters, até a divulgação da condenação, apenas 26 das crianças relacionadas ao processo haviam sido identificadas. As investigações sobre os demais corpos encontrados na região continuam, e outras responsabilidades ainda podem ser apuradas.

A descoberta também provocou críticas à atuação das autoridades quenianas. Mackenzie já havia sido alvo de atenção policial antes da tragédia, mas continuou reunindo seguidores depois de transferir suas atividades para a floresta. O caso intensificou o debate sobre a fiscalização de organizações religiosas e a prevenção de abusos cometidos sob justificativas espirituais.

Processo ainda tem desdobramentos

A condenação pelos 191 assassinatos representa um marco judicial, mas não encerra todos os procedimentos relacionados ao caso. Mackenzie também responde a outras acusações envolvendo mortes, terrorismo e violações dos direitos de crianças.

A identificação das vítimas e a investigação de outras mortes associadas à comunidade permanecem entre os principais desafios das autoridades. A defesa também anunciou a intenção de recorrer da condenação.

A tragédia de Shakahola se tornou um dos casos mais graves de mortes em massa ligados a uma comunidade religiosa no Quênia. Além de expor os efeitos da radicalização, o episódio deixou famílias à espera de respostas sobre o destino de parentes e levantou questionamentos sobre como uma comunidade submetida a práticas extremas conseguiu permanecer ativa por tanto tempo.