Trump suspende sanções contra a Rússia e aumenta tensão com a Ucrânia

Presidente dos Estados Unidos interrompeu parte das restrições aprovadas pelo Congresso, alegando interesse nacional. Zelensky criticou a decisão em meio à intensificação dos ataques russos e às incertezas sobre o apoio americano a Kiev.

Publicado em 17 de outubro de 2026 às 18:09

Presidente dos Estados Unidos interrompeu parte das restrições aprovadas pelo Congresso, alegando interesse nacional. Zelensky criticou a decisão em meio à intensificação dos ataques russos e às incertezas sobre o apoio americano a Kiev.
Presidente dos Estados Unidos interrompeu parte das restrições aprovadas pelo Congresso, alegando interesse nacional. Zelensky criticou a decisão em meio à intensificação dos ataques russos e às incertezas sobre o apoio americano a Kiev. Crédito: Reprodução

Na noite de sexta-feira (16), o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, suspendeu temporariamente parte das sanções econômicas contra a Rússia, dois dias antes de as restrições entrarem em vigor. A decisão, justificada pelo governo americano como uma medida de interesse nacional, provocou críticas de parlamentares e do presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, em meio ao agravamento das tensões entre Washington e Kiev e à continuidade dos ataques russos contra a Ucrânia.

As sanções haviam sido aprovadas pelo Congresso americano e transformadas em lei pelo próprio Trump em setembro. As medidas foram elaboradas para aumentar a pressão econômica sobre Moscou e limitar os recursos usados pelo governo russo para sustentar a guerra contra a Ucrânia.

A legislação previa poderes para que Trump aplicasse tarifas de até 100% sobre produtos importados de países que compram petróleo e gás russos, com destaque para China e Índia. O pacote também incluía restrições contra autoridades do alto escalão russo, instituições financeiras e embarcações da chamada frota fantasma, utilizada para contornar sanções internacionais.

Ao suspender parte dessas medidas, Trump afirmou que a decisão atendia aos interesses dos Estados Unidos. A iniciativa ocorre em um momento de pressão sobre o governo americano para reduzir os preços da energia, que subiram em meio à guerra contra o Irã e aos impactos sobre o mercado internacional de combustíveis.

A alta dos preços também tem consequências políticas para Trump, cuja popularidade foi afetada pelo aumento da inflação às vésperas das eleições legislativas de meio de mandato.

A suspensão de restrições relacionadas à importação de diesel russo já havia provocado críticas de Kiev e de aliados europeus da Ucrânia. Para Zelensky, permitir que Moscou amplie suas receitas com a venda de combustíveis pode ajudar a financiar a própria guerra que os Estados Unidos afirmam querer encerrar.

O presidente ucraniano lamentou a suspensão das sanções e afirmou que os Estados Unidos estavam ignorando medidas que poderiam aumentar a pressão sobre a Rússia.

Na manhã de sábado (17), Zelensky voltou a defender a manutenção das restrições econômicas. Segundo ele, a legislação deveria ter criado uma pressão efetiva para levar Moscou a encerrar o conflito.

O líder ucraniano também citou os ataques russos realizados entre a noite de sexta-feira e a manhã de sábado contra 15 instalações do setor energético da Ucrânia, que provocaram interrupções no fornecimento de eletricidade em diferentes regiões.

"A Rússia está tentando causar um apagão na Ucrânia, justamente antes do inverno", afirmou Zelensky, ressaltando que os acontecimentos deveriam ser acompanhados também pela população americana.

A preocupação de Kiev é que a suspensão das sanções reduza a capacidade de limitar os recursos financeiros russos justamente quando o país enfrenta novos ataques à infraestrutura e tenta manter suas defesas militares.

A decisão provocou reação entre integrantes do Partido Democrata no Congresso dos Estados Unidos. O deputado Don Beyer, representante do estado da Virgínia, acusou Trump de ceder às pressões de Moscou e abandonar os compromissos americanos com a Ucrânia.

Em uma publicação na rede social X, Beyer afirmou que a medida representava uma nova concessão ao presidente russo, Vladimir Putin, e contrariava a intenção do Congresso ao aprovar a legislação.

Do lado russo, a suspensão foi recebida de maneira positiva. Kirill Dmitriev, representante do governo de Moscou, classificou a decisão como um momento histórico e argumentou que as sanções provocaram prejuízos aos Estados Unidos e ao mercado mundial.

Dmitriev também defendeu que a cooperação econômica entre os dois países poderia beneficiar ambos os lados.

A divergência entre as reações evidencia o impacto político da decisão: enquanto Moscou vê espaço para ampliar suas relações econômicas, críticos de Trump temem que a flexibilização enfraqueça a pressão internacional sobre o governo russo.

As relações entre Washington e Kiev já estavam desgastadas antes do anúncio. Nos últimos dias, Trump e Zelensky trocaram declarações críticas, em meio às divergências sobre a condução da guerra e o apoio americano à Ucrânia.

O presidente dos Estados Unidos afirmou que Zelensky era mais difícil de negociar do que Putin. Em resposta, o líder ucraniano fez referência à importância de estar entre "líderes de verdade" durante uma cúpula da União Europeia.

Outro ponto de atrito foi o acordo relacionado à importação de diesel russo, que levou o governo ucraniano a acusar Washington de enfraquecer seu apoio militar e econômico a Kiev.

Trump também anunciou que Rússia e Ucrânia haviam concordado com um chamado "cessar-fogo energético", com o objetivo de facilitar a exportação de diesel russo. O anúncio ocorreu em um cenário no qual os dois países mantêm ataques frequentes contra instalações de energia um do outro.

A Ucrânia afirma que seus ataques contra refinarias russas buscam reduzir as receitas que financiam a guerra. Moscou, por sua vez, diz que suas operações têm como alvo instalações utilizadas pelas forças militares ucranianas.

Zelensky afirmou inicialmente que Kiev interromperia os ataques à infraestrutura energética se a Rússia fizesse o mesmo. Após novos bombardeios russos, porém, as forças ucranianas retomaram ataques contra refinarias na Rússia. Trump condenou a decisão, enquanto o presidente ucraniano respondeu que estava defendendo os interesses de seu país.

As dúvidas sobre o compromisso dos Estados Unidos com a defesa da Ucrânia também aumentaram após problemas no funcionamento do sistema de internet via satélite Starlink, utilizado pelas forças ucranianas para manter comunicações e apoiar operações com drones.

Na semana anterior, a empresa restringiu a velocidade de conexão de alguns drones, segundo relatos ucranianos. A mudança teria prejudicado determinadas missões militares e dificultado a resposta a ataques russos.

Durante o período de instabilidade, a Rússia realizou novos ataques contra o território ucraniano. Autoridades de Kiev afirmaram que a redução no desempenho da rede afetou suas operações e que não houve aviso prévio suficiente.

Na sexta-feira (16), Zelensky declarou que a velocidade do serviço ainda não havia sido completamente restabelecida. Trump negou ter interrompido o compartilhamento de informações de inteligência com a Ucrânia ou reduzido deliberadamente o funcionamento da Starlink no país.

A combinação de incertezas sobre a conectividade militar, divergências diplomáticas e flexibilização das sanções reforça o receio de Kiev de perder parte do apoio necessário para enfrentar as forças russas.

Enquanto as divergências diplomáticas continuam, os combates seguem provocando vítimas. Autoridades ucranianas informaram que, nas 24 horas anteriores ao sábado (17), pelo menos nove pessoas morreram e cerca de 60 ficaram feridas em ataques russos em diferentes partes do país.

Na cidade de Kherson, um motorista de ambulância morreu e outras 20 pessoas ficaram feridas durante ataques russos registrados na manhã de sábado, segundo autoridades ucranianas.

O Ministério da Defesa da Rússia afirmou que suas forças atingiram instalações relacionadas ao setor de defesa da Ucrânia. Entre os alvos citados estavam siderúrgicas, uma subestação elétrica e um navio de carga no Mar Negro.

Nesse cenário, a suspensão de parte das sanções americanas amplia as incertezas sobre os próximos passos da política de Washington para a guerra. Zelensky afirmou que acredita na possibilidade de novas flexibilizações e informou que negociadores ucranianos conversaram com representantes americanos na sexta-feira, com a possibilidade de uma nova reunião na semana seguinte.