Derretimento da 'Geleira do Juízo Final' pode ter impacto duas vezes maior no nível do mar, aponta estudo

Pesquisa na 'Nature Communications' estima contribuição de até 3 cm para os oceanos até 2100

Publicado em 16 de outubro de 2026 às 13:35

Geleira Thwaites, localizada na Antártida Ocidental e conhecida popularmente como a "Geleira do Juízo Final".
Geleira Thwaites, localizada na Antártida Ocidental e conhecida popularmente como a "Geleira do Juízo Final". Crédito: James Yungel/NASA

O derretimento da geleira Thwaites, localizada na Antártida Ocidental e conhecida popularmente como a "Geleira do Juízo Final", pode provocar um impacto na elevação do nível do mar consideravelmente maior do que indicavam as projeções científicas vigentes. Segundo um estudo publicado na revista científica Nature Communications, a geleira tem potencial para contribuir em até três centímetros (3,01 cm) para a subida média global dos oceanos até o ano de 2100.

O índice apurado é aproximadamente o dobro da média estimada por modelos internacionais de referência (que calculavam cerca de 1,52 cm), mesmo em um cenário que não considere aquecimento climático adicional. Conforme os pesquisadores, os cálculos utilizaram as condições meteorológicas e oceânicas médias registradas entre 1996 e 2023, servindo como uma estimativa de limite inferior que isola o efeito físico da infiltração da água sob o manto de gelo.

A velocidade de recuo da geleira — que já recuou 25 quilômetros desde meados da década de 1990 em sua porção ocidental, decorre diretamente da ação da água relativamente quente do mar, que penetra e dissolve a base do gelo. Essa deterioração atua com intensidade na chamada "zona de aterramento", faixa crítica onde a geleira deixa de estar apoiada no fundo rochoso do oceano e passa a flutuar.

De acordo com o pesquisador Mattia Poinelli, autor principal do estudo na Universidade da Califórnia em Irvine (UCI), a maior parte das modelagens tradicionais tratava essa zona de transição de forma restrita, como se fosse uma linha estreita. Ao reconfigurar os cálculos para contemplar uma faixa de transição de dois a cinco quilômetros de largura — dimensão comprovada por monitoramento de satélite —, a equipe constatou que o calor oceânico avança por quilômetros sob a estrutura glacial, acelerando o derretimento inferior.

Atualmente, o avanço da geleira encontra-se parcialmente contido pela Crista Mouginot, uma elevação no leito submarino que funciona como um ponto de ancoragem e estabilização para o gelo. No entanto, a perda constante de massa pode fazer com que a estrutura perca esse suporte e recue em direção à Crista Sul.

Nas simulações que adotaram zonas de aterramento com quatro a seis quilômetros de extensão, a probabilidade de a Thwaites se desprender totalmente da Crista Mouginot até 2100 chegou a 60%. Nesse cenário projetado, o desprendimento do ponto de apoio pode ocorrer já no ano de 2038, o que aceleraria expressivamente o volume de gelo despejado nas águas e a subida do nível do mar.

Os autores observaram que o modelo computacional ainda não engloba todas as variáveis ambientais, como o desprendimento de blocos na frente de gelo (calving) e a dinâmica integral das correntes de água sob a plataforma flutuante. Além disso, a largura da zona de aterramento foi mantida fixa nas simulações, embora sofra variações naturais decorrentes das marés e da inclinação submarina.

Para aperfeiçoar os modelos e diminuir as incertezas climáticas, os cientistas defendem a intensificação de medições diretas de temperatura, salinidade e circulação oceânica sob as plataformas polares.

Com informações do g1.