Publicado em 29 de agosto de 2025 às 10:48
Para avançar ainda mais o nosso Mutirão Global contra a mudança do clima, o embaixador da 30ª sessão da Conferência das Partes (COP30) da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), André Aranha Corrêa do Lago, apresenta sua sétima carta à comunidade internacional, desta vez direcionada às empresas e ao setor privado, forças criativas e essenciais para responder às três prioridades interligadas que a Presidência brasileira estabeleceu para a COP30:>
(1) reforçar o multilateralismo e o regime de mudança do clima no âmbito da UNFCCC;>
(2) conectar o regime de mudança do clima à vida real das pessoas; e>
(3) acelerar a implementação do Acordo de Paris.>
O presidente relata que, diante de um cenário de incerteza sistêmica, onde a urgência climática interage com desafios geopolíticos e socioeconômicos cada vez mais complexos, uma tendência é certa: a transição climática em curso é irreversível. Em diversos setores, líderes visionários e pioneiros já anteciparam as mudanças radicais que se avizinham e escolheram, há décadas, agir, iniciando uma revolução sustentável em muitos segmentos da economia.>
“Como mencionei em minha primeira carta, os líderes empresariais que anteciparem essas mudanças radicais serão aqueles que prosperarão, ao construir resiliência e aproveitar as extraordinárias oportunidades que a transição em curso oferece. Hoje, conclamo todos os líderes empresariais a se unirem ao mundo em Belém. Façam parte desse movimento, juntando-se à mobilização global por um futuro mais próspero, resiliente e sustentável”, diz.>
Veja a carta na íntegra:>
O papel do setor privado na formação de uma nova economia climática>
Em menos de 75 dias, o mundo se reunirá no coração da Amazônia brasileira, em Belém, para a COP30 — um momento decisivo para transformar anos de compromissos climáticos em implementação concreta. Foi solicitado aos países que submetam, em setembro, as suas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) para 2035, de forma que possam ser refletidas no Relatório de Síntese das NDCs de 2025. Esforços significativos foram realizados para garantir que as NDCs conectem as negociações à implementação prática, tornando-se instrumentos voltados para o futuro, que orientem o desenvolvimento e forneçam previsibilidade para o setor privado.>
À medida que nos aproximamos dessa conjuntura crítica, a mensagem que desejo transmitir, juntamente com o Campeão de Alto Nível para a Ação Climática da COP30, Dan Ioschpe, é clara: o momento de agir com urgência é agora. O setor privado já acelerou a transição de maneiras significativas, mas agora precisa avançar ainda mais, aumentando seu engajamento para tornar essa transformação uma realidade exponencial.>
Trinta e três anos atrás, a Cúpula da Terra (Rio 92) estabeleceu as bases para a cooperação internacional em matéria de clima, forjando uma estrutura notável de consenso climático. Fortalecendo o regime, o Acordo de Paris de 2015 uniu quase 200 nações e demonstrou a força do multilateralismo. Mas o impacto do nosso trabalho nos próximos 30 anos dependerá de nossa capacidade de criar as condições regulatórias, econômicas e sociais nacionais para que os objetivos do Acordo de Paris funcionem para as pessoas e para os negócios.>
Para além das salas de negociação e dos púlpitos de plenárias, a COP30 deve dar um passo decisivo da promessa para a implementação, alinhando incentivos, fomentando inovação e revitalizando a colaboração público-privada, traduzindo compromissos passados em resultados tangíveis que entreguem benefícios reais às pessoas e melhorem vidas.>
Apoiado em três décadas de cooperação global, este momento sinaliza não apenas um marco diplomático, mas também uma oportunidade decisiva para os negócios. Com base nas COPs anteriores e no crescente envolvimento do setor privado, acredito que a COP30 pode se tornar a maior plataforma mundial de soluções climáticas transformadoras, onde empresas — em conjunto com outros atores — poderão moldar a futura economia global.>
A transição climática já criou uma nova ordem mundial, remodelando crescimento, empregos, investimentos e competitividade. Como apontado pelo recente relatório das Nações Unidas "Aproveitando o momento da oportunidade”, apenas a energia limpa trouxe mais de 2 trilhões de dólares em investimentos globais no último ano, tendo alcançado quase 35 milhões de empregos em 2023. No Brasil, o Tesouro Nacional, empresas e bancos emitiram mais de 30 bilhões de dólares em títulos verdes até 2024 – todos a taxas de juros mais baixas que os títulos tradicionais – enquanto o setor de energias renováveis já gerou mais de 1,5 milhão de empregos.>
A COP30 será o palco global onde essas tendências transformadoras convergirão, oferecendo aos líderes empresariais oportunidades sem precedentes para estarem na vanguarda da próxima economia. Para orientar o engajamento do setor privado nessa revolução em andamento, a Presidência da COP30 lançou, em paralelo às negociações formais, uma robusta e estruturada Agenda de Ação, que servirá como modelo para a ação climática coletiva.>
Um caminho pragmático para a liderança do setor privado>
A Agenda de Ação Climática, lançada pela primeira vez em Paris, foi criada para dar visibilidade e ampliar soluções concretas provenientes de empresas, investidores, governos subnacionais e sociedade civil em temas como mitigação, adaptação e financiamento climático, fundamentados em oportunidade econômica, inovação tecnológica e justiça social. Para a COP30, a Agenda de Ação continua a servir como motor de implementação para a expansão de soluções sustentáveis, mas redefinimos o seu papel por meio do desenvolvimento de um roteiro claro e pragmático para acelerar o seu impacto.>
Em primeiro lugar, estamos priorizando a implementação dos compromissos já existentes, orientados pelos resultados do primeiro Balanço Global (GST), entregue na COP28. Em segundo, estamos mapeando e conectando iniciativas de COPs anteriores, muitas lideradas pelo setor privado, a fim de identificar sinergias, preencher lacunas e desbloquear oportunidades de escala. Em terceiro, estamos estabelecendo um sistema transparente para monitorar o progresso, evitar duplicações e reforçar a responsabilização por meio de resultados mensuráveis, com base no portal de Ação Climática Global da UNFCCC (conhecido como NAZCA).>
A Agenda de Ação Climática da COP30 está estruturada em seis eixos temáticos e 30 objetivos centrais — que vão desde triplicar a capacidade de energias renováveis e regenerar ecossistemas, até construir cidades resilientes e acelerar o acesso a financiamento sustentável e inteligência artificial. Para cada objetivo, será formado um Grupo de Ativação dedicado a reunir iniciativas de ponta, muitas delas oriundas de COPs anteriores, compondo o que chamamos de “Celeiro de Soluções” — uma plataforma aberta de ações climáticas concretas e escaláveis.>
Também estamos criando Planos de Aceleração de Soluções para cada iniciativa, a fim de identificar barreiras e definir o que é necessário para desbloquear todo o seu potencial — seja por meio de ajustes de políticas, parcerias ou financiamento. O objetivo é avançar da visibilidade para a viabilidade, garantindo que esses esforços se estendam muito além da COP30 e repercutam na década que se inicia.>
Para realizar plenamente o potencial da Agenda de Ação Climática, a Presidência da COP30 vê o setor privado como beneficiário da transição climática e parceiro indispensável para impulsionar sua implementação. Isso significa avaliar riscos relacionados ao clima, adotar planos de transição críveis e se posicionar para engajar de forma construtiva com governos e investidores em políticas, financiamento e entrega de resultados.>
À medida que os países desenham NDCs que fortalecem a resiliência, promovem o desenvolvimento sustentável e asseguram benefícios compartilhados de longo prazo, as empresas devem estar preparadas para atuar como coarquitetas dessa transformação e implementadoras de suas intenções. É por meio desse alinhamento que a colaboração público-privada poderá alcançar a escala e a urgência que a crise climática exige.>
A ação climática é a principal oportunidade de negócios do nosso tempo>
A participação do setor privado é vital; e a oportunidade é histórica. Organizações líderes como WBCSD, SBCOP, We Mean Business, ICC e PRI compreenderam isso há muito tempo, moldando o debate global e promovendo a ambição climática em todos os setores. A transição para uma economia de baixo carbono e resiliente ao clima é agora um dos maiores motores de inovação e crescimento da história. Da energia limpa e da agricultura regenerativa às cadeias de suprimento circulares e soluções baseadas na natureza, as fronteiras dos negócios sustentáveis estão se expandindo exponencialmente – e as oportunidades também. Tecnologia e inovação estão sendo aplicadas em tal escala que o custo da transição está caindo rapidamente tanto no Norte como no Sul.>
Importante destacar que muitas das soluções mais promissoras estão sendo criadas em diferentes partes do mundo. Diante do alto custo de tecnologias estrangeiras e dos impactos mais severos da mudança do clima, países em desenvolvimento estão forjando suas próprias soluções climáticas, com potencial de se tornarem caminhos globais – especialmente devido ao forte engajamento do setor privado. Na COP30, apresentaremos essas inovações locais, que poderão acelerar a cooperação internacional em torno delas e servir como um motor essencial do progresso climático global.>
Uma nova era de entrega coletiva para o clima>
Em Belém, o setor privado terá uma oportunidade sem precedentes de liderar o mundo com rapidez e escala. Estamos convocando as empresas a participarem e se engajarem com soluções credíveis, parcerias, investimentos e ideias.>
A Agenda de Ação Climática é a plataforma onde a política encontra a prática. Ela conecta os resultados negociados no âmbito da UNFCCC com a economia real. É onde nossas ambições globais podem ser alcançadas por meio da implementação local. A agenda foi desenhada para ser inclusiva, transparente e acionável, com uma plataforma digital que permitirá ao mundo acompanhar as soluções em ação e transformar o impulso em resultados mensuráveis.>
A COP30 marca um ponto de inflexão: a transformação dos textos negociados em implementação, da visão em resultados. Belém estará pronta – e o mundo estará atento. Agora precisamos entregar o progresso que prometemos. Convidamos o setor privado – CEOs, investidores, inovadores, empreendedores – a se unirem a nós. Venham a Belém, tragam e conheçam soluções, colaborem e contribuam. As empresas podem mostrar ao mundo o verdadeiro significado da liderança climática.>
Reconhecemos que viajar até Belém apresenta desafios logísticos. Mas é exatamente este o momento em que o setor privado pode liderar pelo exemplo, demonstrando que liderança climática significa engajamento com o mundo real. A Amazônia é símbolo da urgência planetária e lar de povos cujas vidas representam tanto a linha de frente da crise climática quanto o coração de suas soluções. Ir a Belém é uma oportunidade de arregaçar as mangas, ouvir, aprender e somar-se ao espírito colaborativo do Mutirão Global. Esses diálogos críticos devem acontecer não apenas onde é fácil, mas sobretudo onde mais importa.>
É aqui que a credibilidade se forja e onde o compromisso se transforma em ação. A COP30 oferecerá múltiplas oportunidades de engajamento ao longo do processo, mas Belém será o ponto de convergência dessa mobilização global. É onde o impulso se encontrará com o propósito. É onde o diálogo se tornará entrega.>
"O momento de agir é agora – quando a crise se encontra com a oportunidade. Agora é a hora de mudarmos de forma decisiva, por escolha, juntos", finaliza a carta.>