Publicado em 29 de outubro de 2026 às 10:13
Um levantamento inédito sobre a saúde dos ecossistemas no país aponta um paradoxo preocupante para o meio ambiente brasileiro. Embora a extensão territorial somada dos trechos de vegetação nativa isolados pelo avanço do desmatamento tenha diminuído 43% em 38 anos (encolhendo de 287 para 163 hectares entre 1986 e 2024), essas áreas preservadas se transformaram em um verdadeiro "quebra-cabeça" de pedaços cada vez menores.>
Divulgado nesta quinta-feira (29) pelo módulo de Degradação do MapBiomas durante a 17ª Conferência das Partes da Convenção sobre Diversidade Biológica (COP17), em Yerevan, na Armênia, o mapeamento revela que o total de recortes de mata isolados pela agricultura, pecuária ou expansão urbana disparou no período.>
O Brasil saltou de 2,35 milhões de blocos vegetais nos anos 1980 para expressivos 3,41 milhões de recortes em 2024. Essa intensa pulverização ambiental gera sérias consequências para a fauna e a flora. Segundo Dhemerson Conciani, pesquisador do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) e coordenador técnico do grupo de Degradação do MapBiomas, o isolamento dos blocos dificulta a circulação dos animais e a dispersão de sementes.>
A barreira geográfica prejudica a troca de material genético entre as populações vegetais e animais, acelerando o risco de extinções locais.Outro alerta crítico é o avanço das chamadas "áreas de borda" faixas de até 150 metros contíguas ao desmatamento que sofrem com vento forte, perda de umidade do solo e excesso de luz solar. Estima-se que entre 37 milhões e 102 milhões de hectares de vegetação nativa no país estejam expostos a esse desgaste.>
O Cerrado é o bioma com maior extensão de bordas vulneráveis (até 32 milhões de hectares), enquanto a Mata Atlântica lidera em grau de exposição proporcional, tendo até 66% de sua mata remanescente fragilizada.Ao analisar a realidade regional, o estudo mostra que quase metade de todos os recortes de vegetação nativa do país (49%) está concentrada em apenas cinco estados: Minas Gerais, Bahia, Goiás, São Paulo e Paraná.>
A Mata Atlântica desponta como o bioma mais recortado, somando 1,38 milhão de fragmentos e exibindo a menor média do país, com porções de apenas 25 hectares. O Pampa aparece na sequência com média de 81 hectares, seguido pelo Cerrado (105 hectares).>
Na Amazônia, a vegetação ainda se mantém em blocos maiores (média de 662 hectares em 2024), mas o bioma registrou uma perda drástica de continuidade: o tamanho médio dos seus fragmentos despencou 76% em relação a 1986, quando era de 2,7 mil hectares. No mesmo intervalo, a quantidade de blocos isolados na região norte explodiu 260%, saltando de 144 mil para 519 mil áreas retalhadas.>
Para pesquisadores como Eduardo Vélez, da GeoKarten, mapear com precisão esse cenário é indispensável para desenhar políticas de restauração ecológica eficazes. Ao reectar essas áreas por meio de corredores ecológicos, o país consegue proteger sua biodiversidade, atenuar os efeitos do fogo e criar maior resiliência diante de eventos climáticos extremos.>