Publicado em 15 de julho de 2026 às 12:02
Uma disputa silenciosa nas águas claras do Rio Tapajós colocou em pé de guerra gigantes do agronegócio, órgãos de controle e povos tradicionais da Amazônia. O estopim da crise foi a decisão da Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade do Pará (Semas) de dispensar o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) de apresentar um licenciamento ambiental para dragar e aprofundar o rio ao longo de 280 quilômetros, entre Itaituba e Santarém.>
O Ministério Público Federal (MPF) e o Ministério Público do Estado do Pará (MPPA), apoiados por uma rede de 50 entidades socioambientais, reagiram imediatamente, acusando o governo e o órgão federal de articularem uma manobra jurídica para contornar uma proibição recente do Tribunal de Contas da União (TCU), que havia paralisado o projeto justamente pela falta de estudos de impacto e de consulta prévia aos povos indígenas.>
O imbróglio começou a se desenhar em 1º de julho de 2026, quando o plenário do TCU barrou a licitação pública de R$ 74,8 milhões para a obra da hidrovia, apontando que o Dnit não poderia seguir em frente sem ouvir as comunidades locais e realizar os devidos estudos ecológicos. Para contornar essa trava, o órgão federal acionou um Acordo de Cooperação Técnica com a Associação Brasileira para o Desenvolvimento da Navegação Interior (Abani), entidade privada que representa grandes multinacionais do setor de grãos.>
Por meio desse novo arranjo privado, batizado de Plano Anual de Dragagem de Manutenção Aquaviária (Padma) 2026, a própria associação assumirá os custos e a contratação das dragas, utilizando-se da polêmica dispensa ambiental concedida pelo estado do Pará. Na prática, a obra pública travada pelo tribunal foi repassada para as mãos de empresas privadas para fugir das exigências de fiscalização do governo federal.>
Para conceder a dispensa de licença, a Semas usou como base a legislação que desobriga o licenciamento para "dragagens de manutenção", aquelas destinadas apenas à limpeza de sedimentos acumulados, sem alterar a largura ou profundidade originais do rio. No entanto, relatórios técnicos e dados hidrográficos contestam essa versão.>
Dos sete pontos mapeados para receber as escavações, quatro deles (Pederneiras, Santarenzinho, Lago do Roque e Barranco do Navio) nunca passaram por dragagem na história. Tecnicamente, qualquer intervenção inicial em um leito intocado configura obra de aprofundamento e ampliação, e não manutenção. Além disso, o Tapajós é conhecido pela baixíssima presença de sedimentos.>
Ainda assim, em pontos como Itapaiúna, planeja-se remover 879,4 mil metros cúbicos de terra em 2026 uma quantidade 65 vezes maior do que a taxa de sedimentação natural anual da região, provando que o objetivo real é escavar o leito para a passagem de embarcações maiores.>
A pressa em viabilizar o escoamento de soja e milho do Centro-Oeste brasileiro pelo "Arco Norte" ignora riscos ambientais severos descritos pelo MPF e por especialistas. O principal alerta diz respeito à remobilização de mercúrio. Devido a décadas de garimpo intenso na bacia do Tapajós, toneladas de metal pesado estão assentadas e isoladas no fundo do rio. A agitação provocada pelas dragas pode espalhar esse mercúrio pela água, contaminando peixes e envenenando as populações ribeirinhas que dependem da pesca artesanal para sobreviver.>
Há também impactos físicos diretos sobre a biodiversidade e territórios considerados sagrados:>
Locais sagrados ameaçados: O trecho de dragagem em Santarenzinho invade uma área sagrada para o Povo Indígena Munduruku, região que também é cobiçada para a construção de portos privados.>
Ameaça a espécies em extinção: A área de Monte Cristo fica a menos de dois quilômetros de praias de desova de tartarugas-da-amazônia e tracajás. As escavações coincidem com o período de reprodução, e o barulho das máquinas pode inviabilizar o nascimento dos filhotes.>
Gigantes no leito do rio: O novo plano substituiu as antigas dragas de sucção por embarcações do tipo Hopper, significativamente maiores e mais pesadas, que causam forte impacto biológico no ecossistema fluvial sem que nenhum estudo prévio de impacto tenha sido apresentado pelas autoridades.>
Os parâmetros planejados para o canal de navegação com 4,9 metros de profundidade e 128 metros de largura foram desenhados sob medida para atender especificamente comboios de megabarcaças do agronegócio. Especialistas apontam que a priorização desse tráfego comercial é preocupante, principalmente diante das previsões de um forte evento de El Niño para o final de 2026.>
Durante as secas extremas na Amazônia, o tráfego dessas embarcações gigantescas compete diretamente pelo leito reduzido do rio, inviabilizando a navegação de pequenos barcos que transportam alimentos, combustíveis e garantem o acesso a serviços de saúde para as comunidades tradicionais que vivem isoladas. O MPF defende que, em cenários de estiagem severa, as prioridades do poder público devem ser invertidas para proteger o abastecimento humano e a segurança alimentar local em detrimento do fluxo de exportações de commodities.>
Em nota, o Dnit defendeu que executa apenas dragagens de manutenção para garantir as condições mínimas de navegabilidade e segurança no canal já existente, utilizando como base suas normas internas. O órgão informou que realiza monitoramentos constantes nas áreas afetadas e que vem dialogando com a Funai, o Ministério dos Povos Indígenas e a Casa Civil para buscar formas de monitorar e mitigar possíveis impactos ecológicos e sociais.>
A Semas declarou que não há dragagem ativa ocorrendo no Rio Tapajós no momento. A pasta estadual argumentou ainda que, embora a lei federal dispense a licença para manutenção, isso não isenta os órgãos federais de planejamento de prestarem contas e realizarem esclarecimentos e escutas aos povos tradicionais afetados pelo projeto.>
Tanto o MPF quanto o MPPA deram prazos entre 10 e 15 dias para que os envolvidos apresentem documentos técnicos detalhados e cumpram as recomendações de suspensão imediata das obras até que o licenciamento completo e as consultas às comunidades indígenas sejam realizados de forma legal.>