Peixe contaminado preocupa ribeirinhos no Pará; estudo aponta metais até 30 vezes acima do limite

Pesquisadores acompanharam pescadores até os pontos de captura para garantir a origem das amostras, um diferencial em relação a estudos anteriores

Publicado em 19 de março de 2026 às 16:43

Pesquisadores acompanharam pescadores até os pontos de captura para garantir a origem das amostras, um diferencial em relação a estudos anteriores
Pesquisadores acompanharam pescadores até os pontos de captura para garantir a origem das amostras, um diferencial em relação a estudos anteriores Crédito: Nayara Jinknss/Greenpeace

Para quem vive às margens dos rios no oeste do Pará, o peixe não é só tradição, é alimento diário. Mas um estudo da Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA) acendeu um alerta importante: espécies consumidas na região apresentam níveis de metais tóxicos que podem colocar em risco a saúde das populações ribeirinhas.

A pesquisa foi realizada em áreas de pesca de municípios como Santarém, Juruti, Faro, Porto Trombetas e Itaituba. Pesquisadores acompanharam pescadores até os pontos de captura para garantir a origem das amostras, um diferencial em relação a estudos anteriores.

Foram analisadas espécies comuns no prato do paraense, como acari, aracu, piranha, pirarucu, caparari e tucunaré. Em todas, foram identificados metais como mercúrio, arsênio, cádmio e chumbo.

Os resultados chamam atenção: em parte das amostras, principalmente de peixes carnívoros como tucunaré e piranha, os níveis de mercúrio ultrapassam o limite permitido — em alguns casos, chegando a quase 30 vezes acima do tolerado. Considerando o consumo frequente nas comunidades ribeirinhas, o risco à saúde foi classificado como alto em todas as cidades analisadas.

Além disso, cerca de 25% das amostras apresentaram potencial risco de desenvolvimento de câncer, associado principalmente ao arsênio e ao cádmio. O acari, bastante consumido na região, aparece entre os peixes com maior atenção nesse aspecto.

Os impactos desses contaminantes são sérios: o mercúrio pode afetar o sistema nervoso, causar problemas renais, respiratórios e até comprometer o desenvolvimento infantil. Já o arsênio e o cádmio estão ligados ao aumento do risco de câncer.

Outro dado que reforça a preocupação vem da Secretaria de Saúde do Pará, que registrou aumento nos casos de câncer de pele entre 2022 e 2024 na região do Baixo Amazonas, especialmente em Santarém e Juruti — justamente onde o estudo identificou maior exposição ao arsênio. Apesar disso, os pesquisadores destacam que a relação ainda precisa de investigação mais aprofundada.

De onde vem a contaminação

O estudo aponta que o problema está ligado a atividades que fazem parte da realidade da região. Entre elas, o garimpo ilegal — que utiliza mercúrio —, a mineração de bauxita, o desmatamento e o avanço da soja.

Essas práticas contribuem para a degradação do solo e acabam liberando metais nos rios. Com o tempo, essas substâncias se acumulam na cadeia alimentar, atingindo níveis mais altos justamente em peixes predadores, muito consumidos no Pará.

Quem corre mais risco

O impacto é mais intenso entre ribeirinhos, que consomem peixe diariamente. Para quem come com menos frequência — como moradores de outras regiões ou turistas —, o consumo ainda é considerado seguro dentro dos padrões médios nacionais.

Mesmo assim, os pesquisadores alertam: retirar o peixe da alimentação não é uma solução viável para a Amazônia, já que isso agravaria a insegurança alimentar.

A recomendação é outra: ampliar o monitoramento da qualidade da água e dos alimentos, além de fortalecer políticas públicas de saúde nas regiões mais afetadas.

O estudo reforça um ponto central para o Pará: discutir meio ambiente e saúde pública precisa andar junto, principalmente diante do avanço de atividades econômicas que impactam diretamente a vida de quem depende dos rios.