'Vim de uma comunidade quilombola onde a possibilidade de trabalhar com moda era zero', diz estilista paraense que chegou a Milão

Sem formação acadêmica em moda, a estilista construiu sua carreira a partir da prática, da intuição e da persistência

Publicado em 12 de janeiro de 2026 às 11:00

Estilista paraense, Val Valadares, fala sobre trajetória, criação autoral e os caminhos que levaram sua marca das raízes amazônicas às passarelas internacionais - 
Estilista paraense, Val Valadares, fala sobre trajetória, criação autoral e os caminhos que levaram sua marca das raízes amazônicas às passarelas internacionais -  Crédito: Divulgação

Como nasce uma moda que carrega território, ancestralidade e visão de futuro? Essa é a reflexão que conduz o episódio 4 do Biodiversa Podcast, que recebe a estilista paraense Val Valadares em uma conversa potente sobre trajetória, criação autoral e os caminhos que levaram sua marca das raízes amazônicas às passarelas internacionais, incluindo Milão.

Durante a entrevista, Val revisita a infância no interior do Pará, onde começou a criar roupas para bonecas e teve o primeiro contato com a arte por meio da avó artesã. “Eu vinha de uma comunidade quilombola, onde a possibilidade de trabalhar com moda era zero. Na verdade, eu queria ser artesã, porque minha avó transformava tudo em arte”, relembra.

Sem formação acadêmica em moda, a estilista construiu sua carreira a partir da prática, da intuição e da persistência. Ela conta que o reconhecimento do próprio talento surgiu ainda jovem, ao vestir a primeira peça que produziu. “Quando eu vesti aquela roupa, eu me senti uma artista. Eu falei: é isso que eu quero fazer por toda a minha vida”. Para Val, a trajetória foi guiada por fé e coragem. “Eu não fiz moda. Eu digo que o meu é dom. Eu me preparei de acordo com o direcionamento de Deus”.

No episódio, Val também fala sobre o impacto da COP30 em sua carreira. A estilista teve peças expostas na Greenzone e vestindo autoridades, em um momento decisivo de visibilidade nacional e internacional. “Foi tudo muito veloz, mas eu não podia perder a delicadeza de mostrar. Eu tive pouco tempo, mas precisava fazer bem feito”, conta. O retorno veio em forma de reconhecimento e novos negócios. “Teve gente que encomendou uma peça e acabou levando quatro”.

A sustentabilidade surge como eixo central do trabalho da estilista. Ela explica como incorporou práticas conscientes em todas as etapas da produção, da escolha dos materiais às embalagens. “A cereja do bolo pra mim foi a sustentabilidade. Não basta mostrar o regional, é preciso ter compromisso com o planeta”, afirma. “Eu fiquei exigente com a sustentabilidade”.

Val também aborda fé, mercado e visão de negócio, destacando a importância de compartilhar conhecimento e fortalecer outras mulheres e profissionais locais. “As pessoas dizem que é talento, mas eu acho que foi mais fé e coragem do que talento. Eu sempre me disponho a passar o que sei, para que elas tenham coragem e acreditem no trabalho delas”.

O episódio se encerra com reflexões sobre aprendizado contínuo e o desejo de criar um ateliê escola. “A nossa busca por aperfeiçoamento é diária. A gente sempre acha que está no ABCD da arte, porque é isso que nos leva a melhorar”, afirma. Para Val, a essência está na simplicidade e na excelência. “Pra mim, o bonito, simples, está no bem feito”.

A estilista fez outras revelações da sua vida pessoal para as apresentadoras Nélia Ruffeil e Poliana Bentes, no Biodiversa Podcast, já disponível no YouTube e nas principais plataformas de streaming.