Publicado em 16 de abril de 2026 às 14:28
Há duas décadas os corredores de hospitais em Belém ganham um cenário diferente do habitual. A rotina de consultas, exames e tratamentos passa a dividir espaço com risadas e interações leves, que marcam a presença do ‘Projeto Sorria’. A iniciativa de voluntariado da Unimed Belém transforma o ambiente hospitalar por meio da escuta, do respeito e do cuidado.>
Criado em 2006, a partir de uma conversa entre a psicóloga Maria do Carmo e o ator Ricardo Tomaz, o projeto nasceu com um objetivo direto: levar acolhimento a pacientes em situação de vulnerabilidade. Desde então, mais de 300 voluntários já passaram pela iniciativa, que hoje é referência em humanização na capital paraense.>
Um dos idealizadores do projeto, o ator Ricardo Tomaz relembra como tudo começou e destaca o desafio de levar a arte da palhaçaria para dentro dos hospitais. “O Projeto Sorria vai completar 20 anos. Ele começou em 2006, a partir de um convite que recebi da proponente do projeto. Eu já fazia esse tipo de trabalho no Ophir Loyola (hospital para pacientes com câncer), com um grupo menor de atores, e embarquei nesse desafio. O projeto se baseia no voluntariado, mas com um viés artístico, que é a palhaçaria. Existe toda uma preparação, porque o palhaço de hospital tem um comportamento específico, mais contido, focado na interação e no respeito ao ambiente”, explica.>
Antes de chegar aos leitos, os voluntários passam por um processo seletivo e por oficinas de capacitação. Nelas, aprendem sobre a Lei do Voluntariado, técnicas de abordagem e, principalmente, como respeitar o momento de cada paciente.>
Tomaz detalha que há uma formação estruturada para quem deseja participar.>
“Eles passam por uma oficina específica, com aulas de palhaçaria, conceitos de humanização e orientações sobre o voluntariado. Depois dessa imersão, eles vêm para o hospital. Qualquer pessoa pode participar, desde que tenha no coração a vontade de se doar e disponibilidade. Mas a gente também entende que nem todos se adaptam ao ambiente hospitalar, e está tudo bem”, completa.>
A entrada nos quartos segue um protocolo simples, mas essencial. Os voluntários batem na porta, pedem autorização e só entram se houver consentimento. Quando a resposta é negativa, o respeito vem primeiro.>
As visitas acontecem regularmente em hospitais públicos e privados, como os hospitais Metropolitano, Octávio Lobo, de Clínicas e Porto Dias, além de unidades da própria Unimed Belém. A ação envolve pacientes, acompanhantes e também profissionais de saúde, que acabam integrando esse momento coletivo de leveza.>
Para o diretor assistencial da Beneficente Portuguesa, Dr. Vitor Mateus, a presença do projeto contribui diretamente para o ambiente hospitalar. Ele destaca que a iniciativa cria um espaço de convivência mais leve entre todos que fazem parte da rotina hospitalar.>
“Nós estamos aqui proporcionando um momento mais descontraído, de alegria, envolvendo profissionais, familiares e as próprias crianças. A gente espera que isso também funcione como uma forma terapêutica, contribuindo para o bem-estar e a recuperação desses pacientes”, explica.>
Além do impacto emocional, a proposta também dialoga com estudos que apontam benefícios da chamada Risoterapia. Segundo o diretor administrativo da Unimed Belém, Dr. Gilmário Ribeiro, o projeto atua diretamente na qualidade de vida dos pacientes.>
“O projeto Sorria trabalha com voluntários que passam por formação e atuam em diversos hospitais. A proposta é levar humanização por meio da Risoterapia, que já tem efeitos comprovados, como melhora da imunidade e do bem-estar. Atuamos principalmente com crianças em tratamento oncológico e adultos acamados”, destaca.>
Entre os voluntários, o sentimento é de troca. Paulo Melo, que interpreta o palhaço “Paçoca”, participa do projeto há cerca de seis anos e descreve a experiência como transformadora. “As crianças são muito divertidas, principalmente as mais falantes. A gente interage muito com elas e esse momento é ímpar. A gente vem para trazer leveza ao ambiente hospitalar, mas, na verdade, quem sai daqui mais leve somos nós”, conta.>
Ele reforça que o trabalho voluntário vai além da atuação artística e impacta diretamente quem participa. “Eu estou no projeto desde 2018, 2019, e é algo muito gratificante. A gente sabe que as pessoas não gostariam de estar ali, estão enfermas, mas a gente leva alegria e recebe isso de volta em dobro, em triplo. Eu adoro fazer parte disso, é algo maravilhoso”, afirma.>
Segundo ele, as visitas são frequentes e alcançam diferentes públicos.>
“Em média, a gente visita uns cinco hospitais por mês. Cada visita envolve um grupo de voluntários levando sorriso para crianças e adultos. É uma rede grande de pessoas envolvidas”, explica.>
Atualmente, o grupo conta com cerca de 20 voluntários ativos, mas a expectativa para 2026 é ampliar esse número. No passado, o projeto chegou a reunir cerca de 70 participantes, e a meta é retomar esse nível de engajamento no ano em que completa duas décadas.>
O Projeto Sorria constrói conexões em um dos momentos mais delicados da vida de muitos pacientes. A iniciativa reforça que o cuidado em saúde também passa pelo acolhimento e pela forma como cada pessoa é tratada dentro do hospital.>
Por Suellen Godinho e Jorge Mateus Palheta.>