Mitos e verdades sobre a reposição hormonal: o que é preciso saber antes de iniciar o tratamento

Terapias hormonais podem transformar a qualidade de vida, mas só funcionam quando bem indicadas, individualizadas e monitoradas por especialistas

Publicado em 19 de janeiro de 2026 às 11:28

Terapias hormonais podem transformar a qualidade de vida, mas só funcionam quando bem indicadas, individualizadas e monitoradas por especialistas - 
Terapias hormonais podem transformar a qualidade de vida, mas só funcionam quando bem indicadas, individualizadas e monitoradas por especialistas -  Crédito: Divulgação

Cansaço persistente, queda de energia, alterações de humor, perda de massa muscular, ondas de calor, mudanças no sono e no desejo sexual. Esses são os sintomas mais frequentes a partir dos 40 e 50 anos, que levam muitos homens e mulheres a buscar respostas rápidas, geralmente sob o rótulo de “terapia antienvelhecimento”. Mas a medicina moderna é clara: reposição hormonal não é milagre, nem suplemento. É tratamento, com indicações precisas e critérios rígidos de segurança.

Segundo a endocrinologista Paola Almeida Santana Soares, médica e professora do curso de pós-graduação em Endocrinologia da Afya Educação Médica Belém, o maior desafio atual é separar informação de marketing. “Não existe hormônio da juventude. O que existe são homens e mulheres que, por alterações naturais ou por doenças, realmente apresentam queda hormonal acompanhada de sintomas relevantes e, nesses casos, a reposição pode mudar a vida. Mas sempre com critério e análise detalhada de cada paciente”, afirma.

Quando os homens precisam investigar: a controvérsia da “andropausa”

O termo “andropausa” é popular, mas impreciso. Ao contrário da menopausa feminina, um evento marcado pela interrupção do ciclo reprodutivo, os homens apresentam queda lenta e gradual de testosterona, e nem todos vão desenvolver sintomas. Mas é importante observar quando há queda da libido e piora das ereções; cansaço persistente e perda de vitalidade; redução de força e massa muscular, com aumento da gordura abdominal; irritabilidade, desânimo e piora do sono; redução da barba e dos pelos corporais. Mas ter sintomas não basta. “Várias condições podem causar o mesmo quadro, do estresse à obesidade. A reposição só é indicada quando o paciente apresenta dois critérios ao mesmo tempo: sintomas compatíveis e testosterona comprovadamente baixa, dosada pela manhã, em duas coletas distintas”, explica a endocrinologista.

Em homens com diagnóstico confirmado, a reposição pode trazer ganhos relevantes como mais disposição e melhora da vitalidade; aumento de massa e força muscular; melhora da libido e da função sexual e impacto positivo no humor. Porém, quando usada sem indicação ou com doses inadequadas, os riscos incluem infertilidade, aumento da viscosidade do sangue (com risco de trombose), piora da apneia do sono, alterações de humor, problemas hepáticos e complicações na próstata. “Testosterona não é pré-treino nem atalho estético. É um medicamento potente, que pode ajudar muito ou causar danos importantes”, reforça a Dra. Paola.

Menopausa: o que mudou na reposição hormonal?

A reposição hormonal passou por uma verdadeira reinterpretação científica na última década. Estudos antigos que associavam hormônios a aumento de risco cardiovascular e câncer de mama foram revisados e, hoje, a medicina trabalha com um modelo de avaliação mais preciso e individualizado. “Existe uma janela de oportunidade: de forma geral, mulheres com menos de 60 anos e que estão até 10 anos após a menopausa tendem a ter mais benefícios e menos riscos, quando bem selecionadas”, explica a Dra. Paola Soares.

A medicina atual conta com opções mais modernas e seguras, como géis e adesivos transdérmicos de estradiol, que reduzem impacto no fígado e risco de trombose em comparação a algumas terapias orais; estrogênio vaginal de baixa dose, que trata sintomas locais com mínima absorção sistêmica; progesterona micronizada e progestagênios com melhor perfil metabólico; combinação com DIU hormonal, que protege o útero e diminui efeitos sistêmicos. O resultado é um tratamento mais ajustado ao perfil de cada mulher, com menos efeitos colaterais, mais conforto e melhor controle dos sintomas.

A consulta é o primeiro e mais importante exame. A avaliação clínica inclui história de saúde, hábitos, uso de medicamentos, histórico familiar, riscos cardiovasculares, investigação de cânceres hormônio-dependentes e exame físico completo.

Para homens (testosterona)

Antes de iniciar:

• testosterona total matinal (duas coletas);

• SHBG (Globulina Ligadora de Hormônios Sexuais) e testosterona livre ou calculada, se necessário;

• LH (Hormônio Luteinizante), FSH (Hormônio Folículo-Estimulante) e prolactina;

• PSA (Antígeno Prostático Específico) e, conforme idade, avaliação da próstata;

• hemograma, perfil lipídico, glicemia, função hepática e renal.

Durante o tratamento:

• monitorização de testosterona, PSA, hematócrito, lipídios, pressão arterial, glicemia e sintomas.

Para mulheres (menopausa)

Antes de iniciar:

• avaliação dos sintomas e impacto na qualidade de vida;

• análise de riscos de trombose, enxaqueca, doenças cardíacas e histórico de câncer de mama;

• exame clínico das mamas e mamografia conforme diretrizes;

• avaliação do útero quando indicado;

• exames laboratoriais como lipídios, glicemia e função hepática.

Por que falar sobre isso agora?

A busca por “soluções rápidas” para envelhecer bem, de fórmulas manipuladas a práticas sem respaldo científico, nunca foi tão alta. Ao mesmo tempo, homens e mulheres com sintomas reais deixam de receber tratamento por medo ou desinformação. Para a endocrinologista Paola Soares, informação clara é o melhor antídoto. “O objetivo da medicina não é prometer juventude eterna, e sim garantir qualidade de vida ao longo do envelhecimento. Quando feita corretamente, a reposição hormonal pode oferecer exatamente isso.”

Em um país que envelhece rápido, entender o quanto os hormônios fazem sentido é uma questão de saúde pública. E também de cuidado, responsabilidade e ciência.