Publicado em 27 de abril de 2026 às 09:58
A correria do dia a dia tem moldado não apenas a rotina dos adultos, mas também os hábitos alimentares das crianças. Em meio à necessidade de soluções “pra ontem”, alimentos ultraprocessados ganham espaço nas refeições familiares e acendem um alerta importante: o avanço da obesidade infantil.
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De fácil acesso, práticos e altamente palatáveis, esses produtos se tornaram aliados da rotina moderna, mas inimigos silenciosos da saúde. Ricos em açúcares, gorduras e sódio, e pobres em nutrientes essenciais, eles impactam diretamente o desenvolvimento infantil, tanto no presente quanto no futuro.>
De acordo com a professora de Pediatria da Afya Bragança, Kíssila Ferraro, o problema vai muito além do ganho de peso. “A obesidade infantil é uma doença multifatorial, mas o consumo de alimentos ultraprocessados tem um papel central nesse cenário. Eles são nutricionalmente desequilibrados e podem causar desde déficits nutricionais até o aumento do risco de doenças crônicas, como diabetes tipo 2, além de possíveis impactos na saúde mental ao longo da vida”, explica.>
A endocrinologista e professora da Afya Marabá, Dra. Alana Ferreira de Oliveira, reforça essa preocupação: “Pela primeira vez na história, a obesidade ultrapassou a desnutrição. Hoje temos uma porcentagem pequena de crianças com desnutrição e uma porcentagem extremamente elevada de crianças com obesidade”. A afirmação encontra respaldo em dados globais: segundo relatório do UNICEF divulgado em setembro de 2025, a obesidade já é a forma mais prevalente de má nutrição no mundo, afetando 1 em cada 10 crianças e adolescentes em idade escolar, cerca de 188 milhões, e colocando-os em risco de doenças graves.>
Ela explica que os ultraprocessados possuem alta densidade calórica, muito açúcar e gordura, pouca fibra e baixa capacidade de saciedade, o que estimula o consumo contínuo e favorece alterações como glicemia elevada e colesterol alterado já na infância.>
No Pará, a obesidade infantil já atinge cerca de 50 mil crianças, segundo dados da Sespa. Em 2022, foram registradas mais de 22 mil crianças de até 5 anos e quase 37 mil entre 5 e 10 anos com obesidade. Em 2023, os números se mantiveram elevados, com mais de 20 mil casos em menores de 5 anos e 30 mil em crianças de 5 a 10 anos. Embora haja uma leve redução, os índices continuam alarmantes e refletem a tendência mundial apontada pelo UNICEF.>
Dra. Kíssila também chama atenção para o afastamento das crianças das dietas tradicionais, especialmente em regiões ricas em cultura alimentar, como o Pará. Ingredientes típicos e naturais acabam sendo substituídos por produtos industrializados, empobrecendo a alimentação e rompendo vínculos culturais importantes.>
Além da alimentação, outros fatores da vida contemporânea contribuem para esse quadro: o sedentarismo, impulsionado pelo uso excessivo de telas, e a redução das atividades físicas. O resultado é um cenário preocupante, onde problemas antes comuns na vida adulta passam a surgir cada vez mais cedo.>
Embora muitos pais ainda associem o excesso de peso à estética, especialistas reforçam que os impactos são profundos. A obesidade pode desencadear processos inflamatórios no organismo, alterações metabólicas e até influenciar a expressão genética, aumentando o risco de diversas doenças ao longo da vida.>
Dra. Alana ressalta que os mil primeiros dias de vida são cruciais para a formação do paladar e da saúde futura: “Crianças que consomem menos açúcar e sal nos primeiros anos tendem a ter menor chance de obesidade na vida adulta”. Ela alerta também para o perigo do açúcar adicionado e da gordura trans, que além de alterar colesterol e glicemia, criam um padrão de sabor previsível e viciante, dificultando a aceitação de alimentos naturais.>
Os sinais de alerta nem sempre são evidentes. Cansaço frequente, dificuldades respiratórias, alterações no sono e até questões emocionais podem estar relacionados ao excesso de peso. Dra. Alana acrescenta outros indicadores: roupas muito maiores do que a idade, crescimento acelerado em relação aos colegas, manchas escuras no pescoço (acantose nigricans), cintura aumentada e ronco noturno. “Tudo isso mostra que o peso já está impactando a vida da criança”, afirma.>
A responsabilidade, no entanto, não é apenas individual. A construção de hábitos saudáveis passa pela família, escola e políticas públicas. Criar uma rotina com alimentação equilibrada, momentos à mesa, incentivo à atividade física e controle do tempo de tela são passos fundamentais.>
Para Dra. Alana, a mudança começa dentro de casa: “A gente sempre fala: descascar mais e desembalar menos. A criança come o que vê. Se a família consome alimentos naturais, ela tende a seguir esse padrão”.>