Publicado em 15 de maio de 2026 às 15:43
Em um mundo cada vez mais acelerado, em que a rotina exige produtividade constante, a dor costuma ser tratada como um incômodo passageiro, algo a ser silenciado com um analgésico e ignorado. Mas esse “deixar pra lá” pode trazer consequências sérias e prolongadas. O alerta é do médico fisiatra Carlos Costa, professor do curso de pós-graduação em Clínica da Dor da Afya Educação Médica Belém.>
“A melhor forma de tratar a dor é de maneira individualizada. Não existe uma receita pronta. Uma anamnese minuciosa é essencial para identificar as causas e também fatores comportamentais que contribuem para que a dor se torne persistente”, explica.>
A dor crônica, inclusive, passou a ser reconhecida oficialmente como doença a partir de 2022, com a inclusão no CID-11 (Classificação Internacional de Doenças). Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 30% da população sofre com dor crônica. Além de comprometer a qualidade de vida, o problema também está associado a transtornos como ansiedade e depressão. No Brasil, a realidade é semelhante. Um levantamento do Ministério da Saúde indica que 37% dos brasileiros com mais de 50 anos convivem com dores crônicas. Entre eles, cerca de 30% utilizam opioides, medicamentos analgésicos potentes que atuam no sistema nervoso para reduzir a percepção da dor e aliviar o sofrimento.>
Além dos aspectos físicos, fatores emocionais têm papel decisivo nesse cenário. Ansiedade e depressão, antes vistas apenas como consequências, hoje também são compreendidas como causas ou agravantes da dor. “Essas condições estão relacionadas à redução de neurotransmissores como serotonina e noradrenalina, que atuam na modulação da dor. Pacientes com histórico emocional delicado tendem a apresentar menor tolerância e maior risco de dores crônicas”, destaca o médico.>
O tratamento, portanto, vai além da medicação. Envolve mudanças no estilo de vida, como a prática regular de exercícios físicos, sono de qualidade, alimentação equilibrada e estratégias para reduzir o estresse.” Costumo dizer que 70% do tratamento dependem do paciente. Os outros 30% envolvem intervenções médicas e orientações. É um processo que exige consciência e adesão”, reforça o Dr. Carlos Costa.>
A história da auxiliar de serviços gerais, Elisa Cristina Cardoso Lima, ilustra bem os riscos de ignorar os sinais do corpo. Há cerca de um ano, ela voltou a sentir dores intensas nos joelhos, um problema que já havia enfrentado anteriormente. “Eu pensava que era reumatismo e fui levando. Tomava remédio, passava um mês, dois meses, e nada melhorava. Chegou um ponto em que eu não estava mais conseguindo andar”, relata.>
A situação só mudou quando, por indicação de uma amiga, ela decidiu procurar atendimento especializado. “No primeiro dia, eu estava com muita dor, chorando. Fizeram um procedimento para retirar o líquido do meu joelho. Na mesma hora senti um alívio. Ali mesmo comecei a andar melhor”, conta.>
Apesar da melhora, Elisa ainda convive com algumas limitações. “Hoje eu já consigo andar, mas ainda sinto dor às vezes, principalmente quando chove. Mesmo assim, mudou muito. Antes era sofrimento o tempo todo”, revela.>
Para o Dr. Carlos Costa, casos como o de Elisa são mais comuns do que se imagina e reforçam um ponto essencial: dor recorrente ou persistente não deve ser ignorada. “A sensação de dor quando chove ou sentir dor em estímulos que geralmente não causariam é um dos sinais de cronificação da dor, que se chama alodinia Trata-se de uma adaptação do sistema sensorial devido a estímulo doloroso elevado e contínuo. Toda dor merece atenção. Quando ela se torna frequente, cíclica ou não responde a tratamentos simples, é fundamental investigar. Quanto mais tempo a dor persiste, mais difícil pode ser o tratamento”, alerta.>
Ele também chama atenção para a cultura da automedicação, bastante presente no dia a dia. O uso indiscriminado de analgésicos pode mascarar sintomas importantes e atrasar diagnósticos. A dor é um sinal de que algo não está em equilíbrio.”>
No fim das contas, a mensagem é direta: ouvir o próprio corpo pode ser o primeiro passo para evitar problemas maiores. Como resume o médico: “A saúde é o silêncio do corpo. Quando ele fala, por meio da dor, é um pedido de ajuda que não deve ser ignorado.”>