Publicado em 15 de setembro de 2026 às 12:10
O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Edson Fachin, abriu a sessão desta terça-feira (15) pedindo serenidade e respeito entre os ministros durante o julgamento que pode decidir se Alexandre de Moraes será investigado no caso Banco Master.>
Em uma espécie de recado aos integrantes da Corte, Fachin afirmou que o julgamento deve tratar dos fatos e das questões jurídicas, e não de conflitos pessoais entre os ministros.>
Na prática, o ministro pediu que as divergências existentes dentro do STF não interfiram na análise do caso. Segundo ele, é normal que os integrantes da Corte tenham opiniões diferentes, mas essas diferenças precisam permanecer no campo jurídico.>
Fachin também destacou que a decisão não cabe a um ministro individualmente, mas ao conjunto dos integrantes do Plenário.>
Fachin cita crise no STF>
Durante o discurso, o presidente do Supremo reconheceu que a Corte atravessa um período difícil e defendeu a preservação da independência e da autoridade do tribunal.>
Ele também lembrou ministros que passaram pelo STF durante períodos de crises políticas e do regime militar. A referência foi usada para reforçar a ideia de que a atual composição da Corte tem a responsabilidade de preservar a instituição para as próximas gerações.>
Para Fachin, os ministros podem errar, mudar de opinião e discordar uns dos outros, mas devem manter “sensatez, decoro e serenidade” no exercício do cargo.>
O presidente do STF defendeu que:>
o julgamento seja baseado nos fatos e na legislação;>
os ministros não antecipem decisões antes da análise do caso;>
divergências jurídicas não se transformem em brigas pessoais;>
as regras do processo sejam respeitadas;>
a decisão final seja tomada pelo Plenário do STF, e não individualmente.>
Ao encerrar, Fachin afirmou que o país e a história estão acompanhando o momento e que os ministros precisam agir com responsabilidade institucional.>
Na sequência, ele chamou para julgamento a Petição 16.662, processo relacionado à discussão envolvendo Alexandre de Moraes.>
Leia abaixo a íntegra do discurso de Edson Fachin:>
Senhoras ministras, senhores ministros,>
Abro esta sessão consciente de que a Presidência e este colegiado tem diante de si o dever de conduzir este tribunal por um período difícil de sua história, preservando aquilo que lhe é essencial: sua independência, sua colegialidade, sua autoridade e sua fidelidade à Constituição.>
É nesse espírito que proponho que enfrentemos o momento.>
Não se julgam pessoas; julgam-se fatos e questões jurídicas. Não se antecipa o mérito antes de resolvida a validade processual. A divergência é legítima; o confronto pessoal não.>
E a decisão pertence ao Plenário, não a um ministro individualmente. São premissas simples. Mas, em momentos de tensão institucional, é necessário dizer o que deve orientar a nossa atuação. De onde contemplo este colegiado, vejo, antes de tudo, a trajetória de cada um dos colegas.>
Vejo, em Flávio Dino, a experiência de quem foi juiz, parlamentar, governador, e Ministro da Justiça. Vossa Excelência ocupa a cadeira que pertenceu à Ministra Rosa Weber, a quem sucedeu nesta Corte.>
Vejo, em Cristiano Zanin, a formação construída na advocacia. Vossa Excelência ocupa a cadeira que pertenceu ao ministro Ricardo Lewandowski, a quem sucedeu nesta Corte.>
Vejo, em André Mendonça, o professor, o advogado público e aquele que passou pela Advocacia-Geral da União e pelo Ministério da Justiça. Vossa Excelência ocupa a cadeira que pertenceu ao ministro Marco Aurélio, a quem sucedeu nesta Corte.>
Vejo, em Kassio Nunes Marques, o magistrado que construiu sua carreira na Justiça Federal e no Tribunal Regional Federal da 1ª Regão. Vossa Excelência ocupa a cadeira que pertenceu ao ministro Celso de Mello, a quem sucedeu nesta Corte.>
Vejo, em Alexandre de Moraes, o professor, o membro do Ministério Público, da administração pública e Ministério da Justiça. Vossa Excelência ocupa a cadeira que pertenceu ao ministro Teori Zavascki, a quem sucedeu nesta Corte.>
Vejo, em Luiz Fux, o magistrado e o professor. Vossa Excelência ocupa a cadeira que pertenceu ao ministro Eros Grau, a quem sucedeu nesta Corte.>
Vejo, em Dias Toffoli, o advogado, o Advogado Geral da União. Vossa Excelência ocupa a cadeira que pertenceu ao ministro Menezes Direito, a quem sucedeu nesta Corte.>
Vejo, em Cármen Lúcia, professora e magistrada. Vossa Excelência ocupa a cadeira que pertenceu ao ministro Nelson Jobim, a quem sucedeu nesta Corte.>
E vejo, em Gilmar Mendes, professor e magistrado. Vossa Excelência ocupa a cadeira que pertenceu ao ministro Néri da Silveira, a quem sucedeu nesta Corte.>
É assim que vejo cada um de nós: pelas nossas trajetórias e pela contribuição que podemos oferecer à República.>
Mas este não é um dia comum.>
Somos seres humanos. Podemos errar. Podemos divergir. Podemos mudar de entendimento. Podemos ter percepções distintas sobre os mesmos fatos e sobre o Direito.>
O momento exige de nós aquilo que se espera de quem exerce a jurisdição constitucional: sensatez, decoro e serenidade.>
A divergência faz parte da jurisdição. O que não pode fazer parte dela é a perda da medida institucional. É justamente por isso que este Plenário deve ser, neste momento, também um lugar de memória.>
Por estas cadeiras passaram Ministros que conheceram a violência do arbítrio. Evoco Victor Nunes Leal, Hermes Lima e Evandro Lins e Silva, aposentados compulsoriamente pelo regime militar em 1969.>
Evoco também Ribeiro da Costa, que presidia esta Corte quando o País atravessou a ruptura institucional de 1964.>
A memória desses Ministros não é apenas parte da história do Supremo. Ela nos impõe uma responsabilidade.>
Memória, portanto, é responsabilidade. Recebemos um Tribunal que atravessou crises, autoritarismos, ameaças e incompreensões. Em determinamos momentos, esta instituição pagou um preço por permanecer fiel à sua missão constitucional.>
Não temos o direito de entregar às gerações futuras um Supremo Tribunal Federal menor do que aquele que recebemos. Isso não significa ausência de divergência.>
Ao contrário.>
O Supremo existe para que posições jurídicas diferentes possam ser apresentadas, debatidas e submetidas ao julgamento do colegiado. Há respeito institucional mesmo quando há discordância.>
Há consideração pelo colega mesmo quando não há convergência. Há limites que não decorrem da amizade ou da afinidade pessoal, mas da própria função que exercemos.>
A Presidência, por isso, não pode escolher o caminho mais fácil. Cabe-lhe assegurar o funcionamento da instituição.>
Cabe-lhe, sobretudo, fazer com que o Supremo permaneça sendo um Tribunal. É isso que proponho para esta sessão.>
Que enfrentemos as questões que nos são submetidas com base no Direito. Que respeitemos as regras processuais.>
Que não antecipemos juízos antes do momento próprio. Que distingamos a divergência do confronto e a controvérsia jurídica da disputa pessoal. E que tenhamos presente que, ao final, não será a posição individual de qualquer de nós que falará em nome do Supremo.>
Será a decisão do Plenário.>
Peço, por isso, que tenhamos equilíbrio, serenidade e responsabilidade institucional. Não como uma fórmula retórica, mas como uma exigência do cargo que ocupamos. O país olha para esta Corte.>
A história também olhará para este momento. Hoje, não prestamos contas apenas aos nossos contemporâneos. Prestamos contas àqueles que nos antecederam e às gerações que nos sucederão.>
Esta instituição não nos pertence. Nós a recebemos do passado. Temos o dever de preservá-la no presente. E haveremos de entregá-la ao futuro. A instituição permanecerá se soubermos, nesse momento, estar à altura da responsabilidade que recebemos.>
Que assim seja.>
Agradeço a atenção de Vossas Excelências. E apregoo para julgamento a Petição 16.662. Passo a Relatório e à delimitação do objeto de julgamento.>