Após pedido de desculpas em sessão, juízas entregam flores e carta para Cármen Lúcia: “Não está sozinha”

Em carta, magistradas exaltam trajetória de ministra e se solidarizam por desabafo.

Publicado em 16 de setembro de 2026 às 17:23

Ministra recebeu solidariedade de magistradas de diversos tribunais do Brasil -
Ministra recebeu solidariedade de magistradas de diversos tribunais do Brasil - Crédito: Rosinei Coutinho/STF.

Após o desabafo que fez em seu voto na sessão que definiria a abertura de investigação ao ministro Alexandre de Moraes, no Supremo Tribunal Federal, realizada na última terça-feira (15), onde demonstrou tristeza e consternação em presenciar a crise no judiciário, pedindo desculpas ao povo brasileiro, a ministra Cármen Lúcia recebeu, nesta quarta-feira (16), uma carta e doze buquês de flores, que chegaram à sede do STF em Brasília.

Os presentes foram dados por doze coletivos de juízas de diferentes tribunais do Brasil. Na carta, além da sensibilidade que demonstraram perante as suas falas na sessão de ontem, as magistradas exaltaram, não apenas o trabalho que Cármen Lúcia fez e faz no Supremo, como também a pessoa dela e o seu papel histórico como uma das poucas mulheres presentes em locais de relevância, onde há uma grande presença masculina, sendo uma inspiração a outras que queiram seguir a magistratura.

De acordo com o relatório “Justiça em Números 2026", do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), as mulheres representam 39,4% da magistratura brasileira. Os homens são 60,3%. (CNJ).

Veja a íntegra da carta:

“Hoje, estas flores chegam de diferentes Tribunais, trazidas por mulheres que quiseram lhe dizer uma coisa muito simples: a senhora não está sozinha.

Ouvimos ontem sua voz, sua tristeza, sua consternação. E ouvimos quando a senhora buscou em Clarice Lispector as palavras para traduzir um sentimento que talvez já não coubesse inteiramente nas palavras.

Foi à Clarice de Mineirinho que a senhora recorreu — justamente a Clarice que se inquieta diante da Justiça e que, ao olhar para a dor do outro, também olha para dentro de si: ‘Eu não me perdi, mas experimentei a perdição.’

Talvez tenha sido justamente nesse instante, quando a Ministra recorreu à literatura para conseguir falar, que muitas de nós enxergamos mais claramente a mulher.

A mulher que existe antes da toga e para além dela. A menina de Minas que cresceu ouvindo da mãe que, para chegar ao mesmo lugar que os homens, as mulheres precisariam trabalhar mais.

A filha que aprendeu com o pai o tamanho do compromisso de ser juíza. A mulher que trabalhou, estudou, persistiu e chegou a um lugar que, antes dela, pouquíssimas mulheres haviam alcançado.

E talvez por conhecermos um pouco dessa história tenha nos tocado tanto ouvi-la pedir desculpas.

A senhora se perguntou se poderia ter feito mais. Se poderia ter ajudado mais. Se poderia ter contribuído para devolver serenidade a um momento tão difícil. E foi então que sentimos vontade de lhe responder. Há uma diferença imensa entre sentir responsabilidade e transformar esse sentimento em culpa.

Talvez nós, mulheres, conheçamos particularmente bem esse lugar: o de, diante de uma ruptura que não produzimos sozinhas, procurarmos primeiro dentro de nós aquilo que poderíamos ter feito diferente. O de nos perguntarmos se faltou alguma palavra, algum gesto, alguma tentativa a mais.

Por isso, ministra, estas flores não chegam para lhe pedir explicações ou respostas.

Chegam para lhe dizer, com carinho: não transforme em culpa pessoal a tristeza de quem ainda se importa profundamente.

Ontem, a senhora nos levou a Clarice. E nós voltamos a ela procurando alguma coisa que pudéssemos lhe devolver. Encontramos, em ‘A Paixão Segundo G.H’: ‘Estou tão assustada que só poderei aceitar que me perdi se imaginar que alguém me está dando a mão.’

Talvez estas flores sejam exatamente isso. Uma mão. Na verdade, muitas. Mãos de mulheres que também vestem toga. Não nos cabe, nesta carta, falar de processos, votos ou divergências. Cabe-nos falar da mulher que, em meio a tudo isso, ainda se permitiu sentir.

Mulheres de diferentes cidades, diferentes tribunais, diferentes histórias, que reconheceram ontem não apenas a Ministra do Supremo Tribunal Federal, mas uma mulher profundamente tocada pelo peso do lugar que ocupa.

Mulheres que conhecem, cada uma à sua maneira, o peso de decidir. Que sabem o que é entrar em espaços onde, durante tanto tempo, quase todas as cadeiras foram ocupadas por homens. Que conhecem a cobrança de acertar, de resistir, de manter a serenidade e, tantas vezes, de parecer mais fortes do que realmente se sentem.

Hoje, porém, não queremos lhe pedir força. A senhora já precisou ser forte muitas vezes. Não queremos que procure mais uma vez dentro de si aquilo que poderia ter feito.

Talvez, por algumas horas, a senhora possa simplesmente deixar de ser a Ministra que precisa encontrar a palavra certa, a juíza que precisa solucionar, a mulher que sente que deveria ter conseguido fazer mais.

Pode simplesmente ser Cármen. A filha de Anésia e Florival. A menina de Minas.

A mulher que chegou tão longe e que, depois de tantos anos, ainda conserva algo que nenhuma toga deveria nos retirar: a capacidade de se importar, de se entristecer e de se comover.

Talvez tenha sido exatamente isso que vimos ontem. Não uma confissão de culpa. Humanidade. E foi a essa humanidade que quisemos responder.

Clarice precisou imaginar que alguém lhe dava a mão para conseguir atravessar a experiência que narrava. A senhora, ministra, não precisa imaginar. Estamos aqui. Por trás de cada uma destas flores existe uma mulher estendendo a mão. E, se ontem a senhora experimentou a perdição, hoje queremos apenas lhe lembrar que não precisa atravessá-la em solidão.

Receba estas flores como aquilo que elas pretendem ser: presença. E receba, junto delas, o carinho e o abraço de mulheres que, de diferentes lugares do Brasil, quiseram chegar um pouco mais perto da senhora hoje.

Com carinho, respeito e gratidão.”