Banco Central investiga atuação interna após liquidação do Banco Master

Apuração sigilosa busca identificar falhas de supervisão e ocorre em meio à saída de chefes da área responsável pela fiscalização bancária.

Publicado em 29 de janeiro de 2026 às 12:02

Liquidação do Banco Master aciona maior operação de ressarcimento já feita pelo FGC
Liquidação do Banco Master aciona maior operação de ressarcimento já feita pelo FGC Crédito: Reprodução

O Banco Central instaurou uma investigação interna para analisar como se deu a atuação da autarquia no caso que culminou na liquidação do Banco Master, instituição controlada pelo empresário Daniel Vorcaro. A apuração, conduzida sob sigilo pela corregedoria do BC, foi determinada pelo presidente da autoridade monetária, Gabriel Galípolo, ainda no fim do ano passado, para avaliar procedimentos adotados antes e durante a crise que levou ao encerramento das atividades do banco.

A sindicância ocorre paralelamente a mudanças na cúpula do Departamento de Supervisão Bancária (Desup). Belline Santana e Paulo Sérgio Neves de Souza, que ocupavam cargos de comando na área responsável por acompanhar a solidez do sistema financeiro, deixaram suas funções. O Banco Central afirma que não há acusações formais contra os dois e sustenta que substituições em cargos comissionados fazem parte da rotina administrativa do setor público.

Souza, servidor de carreira, teve papel relevante na trajetória do Banco Master ao autorizar, no passado, a aquisição do Banco Máxima, que deu origem à instituição posteriormente liquidada. Mais recentemente, ele atuava como chefe-adjunto do Desup, acompanhando indicadores de risco e estabilidade do mercado bancário. Já Belline chefiava o departamento e assinou comunicações oficiais encaminhadas ao Ministério Público Federal relacionadas ao Master, algumas das quais foram usadas pela defesa de Vorcaro em processos judiciais.

Em um dos documentos, o Banco Central relatou que uma operação considerada suspeita envolvendo carteiras de crédito teria sido revertida no início de 2025. Em outro, informou não ter identificado irregularidades em determinadas operações de crédito consignado realizadas pelo próprio banco. Esses registros passaram a integrar o debate jurídico em torno do caso.

Nos bastidores da autoridade monetária, a apuração interna é descrita como um esforço técnico para compreender o que levou ao colapso da instituição, e não como uma busca por responsabilizações individuais. A intenção seria obter um diagnóstico detalhado do episódio, nos moldes de investigações de acidentes complexos, para corrigir fragilidades regulatórias e aprimorar mecanismos de controle.

O Banco Master chamou atenção do mercado ao adotar uma estratégia agressiva de captação de recursos, oferecendo certificados de depósito bancário (CDBs) com remuneração muito acima da média do setor, chegando a patamares próximos de 140% do CDI. Com o enfraquecimento desse modelo e dificuldades para honrar compromissos, o banco passou a ser acompanhado mais de perto pelo Banco Central a partir de 2024.

Com a deterioração da situação financeira, Vorcaro iniciou negociações para vender a instituição ao Banco de Brasília (BRB), que já vinha prestando apoio por meio da compra de carteiras de crédito. A crise ganhou contornos públicos em 18 de novembro de 2025, quando o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Master, afastou seus administradores e determinou o bloqueio de bens para pagamento de credores.

No mesmo dia, a Polícia Federal deflagrou uma operação para investigar suspeitas de fraudes envolvendo a venda de carteiras de crédito avaliadas em mais de R$ 12 bilhões, em transações que teriam envolvido o BRB. As instituições negam irregularidades e afirmam que os ativos questionados foram substituídos.

Outra frente de apuração, conduzida pela PF em conjunto com o Banco Central, identificou indícios de práticas irregulares na relação entre o Master e a gestora Reag DTVM, que acabou liquidada em janeiro deste ano. Segundo os investigadores, empréstimos concedidos pelo banco teriam sido usados em operações financeiras encadeadas para inflar artificialmente o desempenho de fundos de investimento, com recursos que retornavam à própria instituição na forma de aplicações em CDBs.

Entre os casos analisados está um empréstimo de centenas de milhões de reais a uma empresa ligada a ex-integrantes da gestora, seguido por uma sequência de transferências rápidas entre fundos, resultando em reavaliações expressivas de ativos de baixa liquidez. Master e Reag contestam as conclusões e reiteram que atuaram dentro da legalidade.

Enquanto as investigações avançam em diferentes frentes, o Banco Central tenta extrair lições institucionais do episódio, considerado um dos mais complexos do sistema financeiro recente, para reforçar a supervisão e reduzir riscos de novos colapsos bancários.