Cármen Lúcia: “STF provocou um mal-estar cívico ao país. Me sinto envergonhada”

Ministra pede desculpas ao povo brasileiro durante sessão tensa sobre caso Master e diz que Judiciário gerou intranquilidade a menos de 20 dias das eleições.

Publicado em 15 de setembro de 2026 às 19:24

Ministra do Supremo Tribunal Federal, Carmen Lúcia
Ministra do Supremo Tribunal Federal, Carmen Lúcia Crédito: Marcelo Camargo - Agência Brasil

A ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal (STF), afirmou nesta terça-feira (15), que a Corte provocou um “mal-estar cívico” no país e que se sente “envergonhada” com a forma como as questões internas do tribunal têm dominado a atenção pública a menos de 20 dias das eleições de 2026.

A declaração foi feita durante a sessão plenária extraordinária que discute o relatório da Polícia Federal com mensagens trocadas entre o ministro Alexandre de Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master. Cármen Lúcia acompanhou o presidente Edson Fachin e votou pela manutenção de julgamentos separados dos casos de Moraes e de André Mendonça. O placar chegou a 4 a 4, e o ministro Flávio Dino pediu vista.

“Eu estou nesta sessão, como talvez muitos de meus colegas, em estado de profunda consternação e tristeza. [...] este Supremo Tribunal Federal provocou, acho, um mal-estar cívico em todas as cidadãs e cidadãos brasileiros nesses últimos dias”, disse a ministra.

Ela reforçou o sentimento de constrangimento:

“Me sinto um pouco até envergonhada, presidente, de, no momento em que o Brasil está a menos de 20 dias da eleição, estarmos todos voltados a questões do Supremo, que são questões processuais, em parte com muita expressão e com questões graves mesmo.”

Cármen Lúcia pediu desculpas publicamente ao povo brasileiro, ao presidente da Corte e aos colegas. “Eu peço desculpa ao povo brasileiro que esperava uma postura diferente. Houve uma espetacularização destes casos, desta sessão.” Segundo ela, o Poder Judiciário existe para “tranquilizar o povo”, mas o STF “gerou intranquilidade” e “inebriou o sentimento de justiça da cidadania brasileira” nos últimos dias.

A ministra afirmou ainda que o tribunal não garantiu “o rigor e a serenidade” que, em seu papel de cidadã e juíza, deveria ter ajudado a promover. Ela também declarou não sofrer pressões internas ou externas por seus votos e defendeu a independência necessária para que os ministros continuem a exercer a função de juízes.

Contexto da sessão

A sessão desta terça-feira foi marcada por forte tensão. Ministros trocaram acusações, houve bate-boca entre Gilmar Mendes e André Mendonça, e discussões sobre a condução das investigações do caso Master. Kassio Nunes Marques e Dias Toffoli se declararam impedidos. O julgamento trata, entre outros pontos, da validade do relatório da PF e da possibilidade de abertura de investigação contra Moraes – algo inédito na história da Corte envolvendo um de seus integrantes.

O caso Master ganhou projeção nacional após a prisão de Vorcaro e a revelação de mensagens e relações comerciais que alcançaram o entorno de ministros do STF. A proximidade com o calendário eleitoral elevou ainda mais a repercussão política das discussões internas da Corte.

Cármen Lúcia, frequentemente vista como “fiel da balança” em julgamentos polêmicos, usou o momento para fazer uma autocrítica institucional. Sua fala ecoou o clima de desconforto que marcou o plenário ao longo do dia.

A sessão continua com o pedido de vista de Dino. O STF deve retomar o tema em data a ser definida.