Publicado em 18 de janeiro de 2026 às 09:28
É incrível como no Brasil a corrupção alimenta as instituições em benefício de uma casta que rege e administra orçamentos públicos ou recursos financeiros privados diversos, mediante fraude, sangrando-os em benefício próprio, em todas as instâncias de poder na sociedade. Ao longo de sua história, o Brasil tem sido marcado por escândalos políticos e financeiros, ou ambos simultaneamente, como o mais recente, envolvendo o Banco Master, que pode ser considerado um dos maiores casos de corrupção do sistema financeiro nacional, com uma característica sui generis: apoia-se ao mesmo tempo no tripé ancorado pelos sistemas financeiro, legislativo e judiciário, deixando um rastro de lama que perpassa um caminho pavimentado por fraudes contra clientes do banco, sob o manto protetor do tráfico de influência de Brasília, colocando ainda sob suspeição membros da mais alta Corte Judiciária do País, o Supremo Tribunal Federal (STF).>
Tudo começou com a tentativa do BRB (Banco de Brasília) de comprar o Banco Master, pertencente ao empresário Daniel Vorcaro e seu sócio, Augusto Lima. Diante de indícios de irregularidades nos documentos apresentados, envolvendo fundos públicos, o Ministério Público Federal abriu inquérito para investigar a venda do banco. O próprio Tribunal de Contas da União (TCU) chegou a abrir processo para investigar – pasmem! – possível omissão do próprio Banco Central diante do caso, mas acabou recuando.>
Tudo indica que o Banco Master estaria tentando vender uma parte de seus ativos para escapar da liquidação quando viessem à tona as fraudes perpetradas, uma vez que o banco “maquiava” lucros, fabricando ativos inexistentes, através de carteiras falsas de crédito consignado e de tomadores de empréstimos fantasmas. As investigações apontaram que os ativos eram usados para inflar resultados, dando assim sustentação para novas operações fraudulentas. O próprio presidente do Banco Central, Gabriel Galípulo, chegou a buscar soluções para o caso do Master.>
As irregularidades eram tamanhas e visíveis que a Justiça chegou a barrar a compra do Master pelo BRB. Depois de revogada a liminar que proibia a venda, ativos do Banco foram negociados com o Banco BTB Pactual por R$ 1,5 bilhão, enquanto Daniel Vorcaro ainda tentava vender um terço do Master para o BRB.>
Pressão política>
Quando finalmente o Banco Central vetou a negociação, o PP (Partido Progressista) e partidos do Centrão, no Congresso Nacional, chegaram a articular a aprovação de um projeto de lei para demitir o presidente do Banco Central, pois pressionavam para que o Master fosse de qualquer forma vendido para o BRB. Diante da pressão política, o presidente do Banco Central acionou o Ministério Público Federal, levando a Polícia Federal a abrir inquérito para investigar o Master.>
Durante as investigações, a Polícia Federal descobriu que a fraude perpetrada pelo Master chegava a R$ 12 bilhões, o que embasou a prisão a Daniel Vorcaro e seu sócio, Augusto Lima, com a consequente liquidação do Master pelo Banco Central. Mas o dono do Master logo conseguiu um habeas corpus e ganhou a liberdade, passando a cumprir prisão domiciliar em São Paulo.>
Outras empresas, como a Fictor Holding Financeira e a Reag também tentaram comprar o Master, talvez para evitar a sua liquidação, tanto que esta última, que administra fundos de investimentos, teria comprado ativos do Master de pouco valor como se valessem milhões de reais.>
Suspeição>
O escândalo se alastrou com as investigações paralelas feitas pela imprensa, aprofundando o mar de lama em que o Banco Master estava afundado. À medida que mais podres vinham à tona, maior era o risco de levar ao fundo pessoas influentes de todos os setores da mais alta administração do País, com o próprio ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, pois a PF descobriu que o escritório de advocacia da esposa do ministro, Viviane Barci de Moraes, mantinha um contrato de prestação de serviços jurídicos para o Banco Master no valor de nada menos que R$ 129 milhões por um período de até três anos, pagos em parcelas mensais de R$ 3,6 milhões, e que a execução do contrato era vista como prioridade, tanto que alguns pagamentos chegaram a ser feitos.>
Diante do tamanho da fraude, a Polícia Federal desencadeou nova operação, com 42 mandados de busca e apreensão, que atingiram familiares de Daniel Vorcaro, como o cunhado dele, Fabiano Zettel, também envolvido em irregularidades e que acabou sendo preso quando tentava escapar do País, além de empresários. A Justiça, por sua vez, determinou o bloqueio de R$ 5,7 bilhões. A suspeita era de que os recursos desviados eram repassados para “laranjas”.>
Questiona-se também a participação do ministro do STF Dias Toffoli no caso, uma vez que avocou para si a investigação, mas as medidas que tomou mais pareciam ter o objetivo de abafar o caso, chegando ele próprio a escolher quais peritos da Polícia Federal deveriam investigar o material obtido nas operações de busca e apreensão.>
O maior de todos os escândalos>
O caso do Banco Master revelou toda a teia de maracutaias e protecionismo que envolve os bastidores da política e dos poderes constituídos no Brasil, deixando a nós – pobres mortais, trabalhadores ou empresários sérios e cumpridores do nosso dever – a omissão e total falta de proteção do Estado. No caso do Master, no entanto, os cerca de 1,6 milhão de clientes receberão todos os recursos que investiram, pois o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) vai arcar com o prejuízo, estimado em cerca de R$ 41 bilhões, o que constitui o maior resgate da história do Fundo, tamanho o rombo perpetrado.>
Mas todos nós sabemos que o dinheiro que vai cobrir o rombo é, na verdade, o meu e o seu dinheirinho. A pergunta que não quer calar, na verdade, é: a quem podemos recorrer, se as raposas estão justamente dentro do galinheiro?>
Até quando teremos que conviver com casos de escândalos financeiros como Coroa-Brastel (Assis Paim Cunha), Banco Marka (Salvatore Cacciola), Opportunity (Daniel Dantas), Banco Santos (Edemar Cid Ferreira), Banco Econômico (Ângelo Calmon de Sá), Banco BMG (Ricardo Guimarães), Banco Rural (Kátia Rabello), Banco BTG Pactual (André Esteves), entre tantos outros.>
Só nos resta acreditar e lutar com nossas armas, nossas palavras, nossa força, para que um dia estes fatos sejam apenas história nos livros dos nossos netos, pois, ainda assim, acreditamos num futuro melhor.>