Caso Eliza Samudio: pedidos de ajuda ignorados, crime sem corpo e passaporte encontrado 15 anos depois

Modelo desapareceu em 2010, teve a morte confirmada pela Justiça e nunca teve o corpo localizado

Publicado em 6 de janeiro de 2026 às 17:58

Imagens de Eliza Samudio.
Imagens de Eliza Samudio. Crédito: Divulgação/Netflix

O desaparecimento e a morte de Eliza Samudio continuam entre os episódios mais marcantes da crônica policial brasileira. Quinze anos após o crime, um novo elemento trouxe o caso de volta ao noticiário: o passaporte da modelo foi encontrado em Portugal, segundo informou o Itamaraty. O documento está expirado e cancelado e será encaminhado à família, mas não há, até o momento, informações oficiais sobre como ele chegou ao país europeu.

Quem era Eliza Samudio

Eliza cresceu em Foz do Iguaçu, no Paraná. Aos 18 anos, mudou-se sozinha para São Paulo em busca de oportunidades. Sonhava em seguir carreira no futebol feminino como goleira e também tentou trabalhar como modelo. Sem apoio e enfrentando dificuldades financeiras, acabou atuando em produções pornôs para se sustentar. Depois, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde conheceu o então goleiro do Flamengo, Bruno Fernandes, que vivia o auge da carreira em 2009.

Relação com o goleiro e gravidez

O relacionamento entre Eliza e Bruno começou em 2009. Pouco tempo depois, ela engravidou. A gestação foi tornada pública e a paternidade atribuída ao jogador, que se recusou a reconhecer o filho. Naquele período, Bruno mantinha outros relacionamentos e vivia uma fase pessoal conturbada, apesar do sucesso esportivo.

Durante a gravidez, Eliza registrou ocorrências policiais relatando agressões, ameaças e tentativa de aborto forçado. Em outubro de 2009, um vídeo divulgado pelo jornal Extra mostrou a modelo em frente à Delegacia Especial de Atendimento à Mulher (Deam), acusando o goleiro de sequestro e violência. Ela pediu medidas protetivas, mas o afastamento foi negado sob o entendimento de que o caso não se enquadrava na Lei Maria da Penha por não haver relação estável entre as partes.

O inquérito policial avançou lentamente. O laudo toxicológico solicitado para apurar a tentativa de aborto só ficou pronto depois do desaparecimento de Eliza. O jogador demorou a prestar depoimento, alegando compromissos profissionais.

Desaparecimento e morte

O filho do casal, Bruno Samudio, nasceu em 10 de fevereiro de 2010. Como a paternidade não foi reconhecida, a Justiça determinou a realização de exame de DNA. Em junho daquele ano, Eliza informou a amigos que faria uma viagem e desapareceu no dia 4. Nunca mais foi vista.

As investigações apontaram que ela foi atraída de volta ao Rio de Janeiro após o goleiro afirmar que queria um acordo. Eliza e o bebê ficaram hospedados em um hotel na Barra da Tijuca e, depois, foram levados à força para um sítio em Esmeraldas, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Em 10 de junho de 2010, Eliza foi conduzida por Luiz Henrique Romão, conhecido como Macarrão, até o local onde foi morta por Marcos Aparecido dos Santos, o Bola. O corpo jamais foi encontrado.

Investigações, julgamento e condenações

Ao longo das apurações, peças de roupas e fraldas foram encontradas no sítio. O bebê foi localizado dias depois em Ribeirão das Neves (MG). Inicialmente tratada como desaparecida, Eliza foi alvo de ataques e estigmatização pública.

Em março de 2013, Bruno foi condenado a 22 anos e 3 meses de prisão por homicídio triplamente qualificado, sequestro e ocultação de cadáver, além do sequestro do filho. Macarrão foi condenado a 15 anos por sequestro e cárcere privado. Bola recebeu pena de 22 anos. Outros envolvidos também foram condenados por participação no sequestro do bebê. A ex-mulher do goleiro, Dayanne Rodrigues, foi absolvida.

Bruno cumpriu parte da pena em regime fechado, progrediu para o semiaberto em 2018 e está em liberdade condicional desde janeiro de 2023. Tentou retomar a carreira no futebol após deixar a prisão, mas sem sucesso.

O passaporte encontrado em Portugal

Nesta semana, o Itamaraty confirmou que o passaporte de Eliza foi localizado em Portugal. O Consulado-Geral do Brasil em Lisboa informou que o documento foi encontrado na última sexta-feira (2) e encaminhado ao Ministério das Relações Exteriores, em Brasília, para posterior entrega à família. Não há esclarecimento oficial sobre as circunstâncias que levaram o documento ao país europeu.

A família afirmou que o achado não altera o entendimento sobre o caso e que não há dúvidas quanto à morte de Eliza. Também informou que deseja ter acesso ao documento para verificar sua autenticidade.

Memória e registros do caso

Em 2024, crime voltou a ganhar visibilidade com o documentário A Vítima Invisível: O Caso Eliza Samudio, que detalha os pedidos de ajuda feitos pela modelo antes de desaparecer e o percurso das investigações até as condenações.

Apesar das sentenças, o caso permanece sem resposta quanto ao paradeiro do corpo de Eliza Samudio. A origem do passaporte encontrado em Portugal e as circunstâncias que envolveram sua circulação fora do país seguem sem esclarecimento oficial até o momento.