Como a cúpula do INSS faturava milhões em propina roubando moedas de aposentados

Investigação da Polícia Federal indicia 48 pessoas, incluindo a antiga cúpula da previdência, por um desvio de R$ 708 milhões sustentado por descontos ilegais em pensões.

Publicado em 15 de julho de 2026 às 09:25

Como a cúpula do INSS faturava milhões em propina roubando moedas de aposentados
Como a cúpula do INSS faturava milhões em propina roubando moedas de aposentados Crédito: Reprodução

Uma engrenagem silenciosa e cruel que roubava moedas diretamente do bolso de mais de 600 mil aposentados e pensionistas em todo o país sustentou, durante meses, um dos maiores escândalos de corrupção recente na previdência pública. A Polícia Federal concluiu o indiciamento de 48 pessoas envolvidas em um esquema bilionário de fraudes no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).

As investigações revelaram que, para manter o negócio funcionando sem sobressaltos, uma rede de corrupção pagou pelo menos R$ 24,6 milhões em propinas para a alta administração da autarquia. Nas conversas internas dos criminosos, esses servidores públicos corruptos eram tratados com termos de reverência e carinho, sendo chamados de "heróis", "notáveis" e "amigos".

O esquema girava em torno dos chamados descontos associativos. De forma ilegal e sem qualquer autorização dos segurados, associações de fachada aplicavam mensalidades diretamente nas folhas de pagamento de aposentados do INSS. O volume de dinheiro arrecadado era tão gigantesco que o faturamento dessas entidades disparou de forma astronômica, chegando a movimentar R$ 2 bilhões em apenas um ano.

Diante de milhares de reclamações administrativas e processos judiciais abertos pelas vítimas, os fraudadores precisavam de um escudo protetor dentro do próprio INSS para impedir que as fraudes fossem barradas. A solução foi comprar o topo da hierarquia do órgão. O dinheiro desviado das pensões era usado para garantir uma blindagem institucional e manter a fluidez do esquema. Sem essa conivência comprada por meio de pagamentos quase mensais, seria impossível sustentar uma fraude de tamanho impacto.

A quebra de sigilo bancário e a extração de dados de celulares apreendidos durante as investigações expuseram uma rede de comunicação altamente cifrada, repleta de apelidos curiosos usados para cancelar os rastros dos envolvidos.

O ex-presidente do INSS Alessandro Antônio Stefanutto era apelidado de "italiano" nas mensagens e é suspeito de receber repasses mensais de R$ 250 mil em propina. Para camuflar o caminho do dinheiro, os operadores do esquema usavam empresas de fachada, incluindo uma pizzaria.

Outros nomes importantes da estrutura do órgão e de entidades parceiras também ganharam identidades secretas nos chats dos criminosos:

"Malvado": Codinome usado para se referir ao ex-procurador-geral da autarquia Virgílio Antônio Ribeiro Filho.

"Senza capelli" (sem cabelo, em italiano): Apelido dado ao lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, amplamente conhecido nos bastidores como "Careca do INSS".

"Painho" ou "Funai": Como os criminosos identificavam Carlos Roberto Ferreira Lopes, presidente da Confederação Nacional de Agricultores Familiares e Empreendedores Familiares Rurais (Conafer).

Entre os 48 indiciados pela Polícia Federal também figuram o ex-ministro da Previdência José Carlos Oliveira e outros agentes políticos considerados essenciais para a manutenção do negócio ilegal.

Toda a estrutura criminosa começou a desmoronar graças ao trabalho de jornalismo investigativo do portal Metrópoles, que publicou uma série de reportagens denunciando a explosão de descontos indevidos nos benefícios de aposentados. Ao todo, a Polícia Federal utilizou 38 matérias jornalísticas como base técnica para fundamentar o pedido de abertura da Operação Sem Desconto.

O impacto das revelações foi imediato e atingiu o coração do governo federal. As apurações conjuntas da Polícia Federal e da Controladoria-Geral da União (CGU) provocaram as demissões do então presidente do INSS e do ministro da Previdência, Carlos Lupi, além de expor as vísceras de um sistema que usava o suor de quem passou a vida inteira trabalhando para enriquecer uma quadrilha de falsos heróis.