Como as apostas online destruíram uma vida e moveram uma mãe contra o império dos influenciadores

Após a trágica perda do filho em Uberlândia por causa do vício em jogos virtuais, professora mobiliza o Congresso Nacional e o Ministério da Justiça.

Publicado em 15 de julho de 2026 às 09:01

Como as apostas online destruíram uma vida e moveram uma mãe contra o império dos influenciadores
Como as apostas online destruíram uma vida e moveram uma mãe contra o império dos influenciadores Crédito: Reprodução/Redes sociais

Na calada da noite, o brilho da tela de um celular pode esconder o início de um caminho sem volta. Em 2024, na cidade de Uberlândia, em Minas Gerais, a vida de Rafael Borges do Amaral foi interrompida após o jovem perder suas economias, sua motocicleta e seus sonhos no mercado de apostas online de cota fixa, as chamadas bets. Diante do rastro de destruição psicológica e financeira deixado pelo vício do filho, a professora Vânia de Souza Borges, mãe de Rafael, decidiu transformar o luto em uma batalha de alcance nacional.

Ela agora lidera uma mobilização para responsabilizar judicialmente os influenciadores digitais que promovem essas plataformas com promessas ilusórias de dinheiro fácil, uma cruzada que já provocou desdobramentos no Senado Federal e no Ministério da Justiça.

Antes de entrar no mundo das apostas, Rafael era conhecido por sua alegria contagiante, doçura e generosidade. No entanto, o envolvimento com as plataformas de jogos digitais alterou drasticamente sua personalidade. O que começou como uma diversão esporádica logo se transformou em uma obsessão diária e silenciosa.

Aos poucos, o jovem passou a se isolar dos amigos e apresentou comportamentos agressivos. Embora afirmasse no início que estava ganhando dinheiro, a realidade financeira era bem diferente. Rafael trabalhava intensamente, mas todo o seu salário era consumido pelo jogo. Ele vendeu uma motocicleta seminova avaliada em 8 mil reais e perdeu o próprio emprego devido às faltas recorrentes, provocadas por noites inteiras em claro diante do celular.

Vânia relembra que tentava intervir durante as madrugadas, implorando para que o filho desligasse o aparelho, mas as tentativas de diálogo costumavam terminar em discussões, já que o jovem não admitia a dependência. Em meio ao agravamento da situação, Rafael chegou a se mudar para a casa da avó.

A dimensão real do problema só foi compreendida por Vânia após a morte do filho, quando ela teve acesso ao celular, às redes sociais e aos e-mails de Rafael. O aparelho revelou uma avalanche de notificações predatórias enviadas pelas plataformas de apostas, que ofereciam bônus, rodadas grátis e incentivos constantes para que ele continuasse jogando. Toda essa publicidade era endossada por influenciadores digitais famosos.

A análise das transações financeiras revelou que, às 1h48 da madrugada do dia de sua morte, Rafael realizou um Pix de apenas 30 reais para uma conta ligada ao Jogo do Tigrinho. Pouco antes, ele havia enviado um áudio a um amigo desabafando sobre a perda total do controle sobre o vício e o sumiço de suas economias.

A mãe acredita que aquela última transferência consumiu o dinheiro restante que o jovem guardava para realizar o sonho de abrir o próprio negócio de lavagem de carros (lava a jato). Devido ao sigilo bancário, as instituições financeiras negaram o acesso aos extratos completos, impedindo a família de calcular o prejuízo total acumulado.

Para Vânia, a publicidade de influenciadores digitais funciona como uma armadilha altamente eficiente para atrair pessoas em situação de vulnerabilidade. Ao simularem ganhos expressivos e criarem um cenário fictício de prosperidade rápida, essas personalidades da internet seduzem o público a entrar em um ciclo de perdas.

"Resolvi cobrar a responsabilidade dos influenciadores porque são eles que seduzem as pessoas a entrar nesse mundo", afirma a professora, destacando que os criadores de conteúdo lucram alto com essas campanhas e devem responder pelas consequências sociais de suas divulgações.

Após ter as investigações iniciais arquivadas pelo Ministério Público de Minas Gerais em maio de 2025 e ouvir da Polícia Civil que nada poderia ser feito no âmbito criminal, Vânia não recuou. Ela enviou uma carta relatando a história de Rafael ao Congresso Nacional. O documento acabou integrado aos arquivos da CPI das Bets no Senado, cujo relatório final, elaborado pela senadora Soraya Thronicke, chegou a sugerir o indiciamento de empresários e influenciadores, mas acabou rejeitado por uma votação apertada de 4 votos a 3.

A persistência da professora gerou novos desdobramentos políticos recentes. A deputada federal Dandara (PT-MG) protocolou uma representação formal junto ao Ministério da Justiça e Segurança Pública. O documento pede que a Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) e o Departamento de Proteção e Defesa do Consumidor abram uma investigação para apurar publicidade enganosa, estratégias digitais abusivas e o papel de agências e influenciadores na promoção das bets.

Atualmente, o Ministério da Justiça analisa a representação por meio de suas áreas técnicas. Embora o Brasil tenha adotado regras mais rígidas para o setor, exigindo alertas sobre riscos e proibindo a associação dos jogos ao sucesso financeiro, Vânia defende que a fiscalização precisa ser muito mais rigorosa para evitar novas tragédias familiares.