Coronel réu por matar esposa PM diz ser tratado como 'escravo' dentro de presídio

Geraldo Neto afirma que oficiais são minoria no Romão Gomes, relata tarefas de limpeza e diz precisar pedir permissão a soldados para entrar nas celas

Publicado em 7 de setembro de 2026 às 21:15

Geraldo Neto afirma que oficiais são minoria no Romão Gomes, relata tarefas de limpeza e diz precisar pedir permissão a soldados para entrar nas celas
Geraldo Neto afirma que oficiais são minoria no Romão Gomes, relata tarefas de limpeza e diz precisar pedir permissão a soldados para entrar nas celas Crédito: Redes Sociais

Em interrogatório prestado à Corregedoria da Polícia Militar, o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, réu pela morte da esposa, a soldado Gisele Alves Santana, relatou as dificuldades que afirma enfrentar no Presídio Militar Romão Gomes, na zona norte de São Paulo. Segundo o oficial, ele precisa pedir autorização a soldados para entrar em celas, além de realizar tarefas como lavar banheiros, limpar corredores e buscar refeições.

“Eu sou um escravo”, declarou Geraldo durante a oitiva. Em outro momento, afirmou: “Só Deus sabe o que eu tô sofrendo aqui dentro”.

O depoimento foi prestado por Geraldo na condição de indiciado, acompanhado por um advogado, dentro do Inquérito Policial Militar (IPM) que investiga a morte de Gisele.

Segundo o coronel, a maioria dos presos da unidade é formada por cabos e soldados, enquanto os oficiais seriam minoria. Ele afirmou que essa diferença de patente acaba provocando uma inversão da hierarquia que existe fora do presídio.

“Aqui, eu não sou o Geraldo que a imprensa acusa de matar a Gisele. Aqui, dentro dos internos, eu sou o tenente-coronel que assassinou uma soldado”, afirmou.

Geraldo relatou ainda que, ao entrar em uma cela, precisa pedir autorização ao policial mais antigo do local, que, segundo ele, é um soldado. O oficial também disse realizar serviços de limpeza, como lavar banheiros, louças e corredores, além de fazer faxinas e buscar café, almoço e jantar.

De acordo com o depoimento, dentro do presídio existem regras que vão além das normas oficiais da unidade. “Existem as normas internas e existem as normas dos internos”, disse.

O tenente-coronel afirmou também dividir o presídio com policiais que já foram fiscalizados por ele enquanto ocupava funções de comando nas zonas leste e oeste da capital paulista.

“Esses policiais me encontram [no presídio] e me cobram”, declarou.

Geraldo citou ainda um episódio ocorrido em janeiro de 2025, quando, segundo ele, chegou a dar voz de prisão a um tenente e a um pelotão inteiro por insubordinação. O coronel afirmou que há no Romão Gomes policiais de unidades que estiveram sob sua fiscalização durante a carreira.

No raio onde está preso, ele disse haver 17 policiais e afirmou que o mais antigo do grupo é um soldado com menos de cinco anos de corporação, responsável pela chefia do local.

“Quem é oficial e está aqui, comandante, apenas devia contar, para cada dia cumprido, tinha que contar três. Porque só Deus sabe o quanto é difícil estar aqui dentro, como oficial”, afirmou.

As alegações sobre intimidação, cobranças e diferenças no tratamento dentro do presídio foram feitas pelo próprio Geraldo Neto durante o interrogatório. Até o momento, o IPM não apresenta confirmação de eventuais represálias contra o oficial.

Geraldo deveria prestar interrogatório à Justiça comum nesta terça-feira (8), mas a audiência foi novamente adiada. Essa foi a terceira vez que o ato processual acabou remarcado.

Em decisão da última sexta-feira (4), a juíza Michelle Porto de Medeiros Cunha Carreiro marcou o novo interrogatório para 5 de outubro, às 13h.

O adiamento ocorreu após a defesa solicitar novas diligências antes do depoimento. A magistrada determinou que a perita Amanda Rodrigues Marinone esclareça quem realizou uma gravação mencionada durante uma audiência.

Também foi solicitado ao Instituto de Criminalística que faça uma nova complementação aos quesitos apresentados pela defesa, considerada pela magistrada como “nova (e derradeira) complementação”. O prazo estabelecido para o procedimento foi de 20 dias.