Publicado em 26 de junho de 2026 às 11:22
Uma atividade cultural sobre as raízes afro-brasileiras virou caso de polícia e mobilizou um forte aparato armado dentro de uma escola de educação infantil na Zona Oeste de São Paulo. O episódio, que envolveu 12 policiais militares um deles portando um fuzil, terminou com o arquivamento do inquérito pela Polícia Civil, que considerou a ação dentro dos protocolos da corporação.>
No entanto, a investigação foi encerrada sem que todas as imagens das câmeras corporais dos agentes fossem analisadas, levantando debates sobre os limites da atuação policial e o preconceito religioso.>
Tudo começou quando o pai de uma aluna de 4 anos, que é soldado da PM, revoltou-se ao ver um desenho da orixá Iansã feito pela filha. Ele alegou que a EMEI Antônio Bento estava forçando a menina a ter aulas de religião africana. No dia seguinte, o grande contingente policial foi acionado para atender o chamado.>
Vídeos das câmeras de farda obtidos posteriormente revelam um cenário tenso. A então diretora da unidade tentou explicar ao comandante da operação, tenente Ronald Camacho, que o desenho fazia parte de um projeto pedagógico baseado no livro infantil Ciranda de Aruanda, que integra o acervo oficial da rede municipal.>
A atividade cumpre as leis federais que tornam obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira e indígena. Na ocasião, a diretora relatou que o pai havia entrado de maneira agressiva na escola no dia anterior, coagindo a professora e arrancando o desenho da parede.>
A versão da comunidade escolar, contudo, bateu de frente com a postura do tenente. Durante a conversa, o oficial subiu o tom, acusando a educadora de tentar impor sua ideologia. Ele rebateu os argumentos pedagógicos afirmando que havia visto o desenho com o nome de Iansã e que isso configurava conteúdo religioso. Ao final, o policial recusou-se a continuar o diálogo, ameaçando retornar com medidas administrativas. Uma supervisora de ensino chegou a intervir por telefone, reforçando que a discussão era estritamente pedagógica e não um crime, mas o clima permaneceu hostil.>
A Secretaria da Segurança Pública defendeu a conduta dos PMs. Segundo a pasta, o fuzil permaneceu preso à bandoleira em posição segura, e os agentes são proibidos de deixar armas letais dentro das viaturas por risco de extravio. A secretaria reiterou que a equipe seguiu os padrões para desentendimentos escolares e que os policiais recebem treinamento para mediação de conflitos de forma neutra.>
No depoimento oficial registrado no inquérito, o tenente Camacho afirmou que a abordagem ocorreu de forma pacífica e sem qualquer tipo de agressividade. O relatório entregue pela PM à Polícia Civil continha apenas imagens estáticas e omitiu por completo a discussão ríspida com a diretora, descrevendo que os policiais deixaram o local interagindo fraternalmente com os funcionários.>
Diante disso, o delegado Saulos Ramos Furquim concluiu que a atuação seguiu a praxe, embora tenha pontuado que o conflito escalou devido a uma interpretação equivocada do policial sobre o trabalho da escola.>