Delação de Vorcaro liga gestões de Rui Costa e Jaques Wagner a esquema no CredCesta

Depoimento de Daniel Vorcaro revela como decretos estaduais blindaram o programa CredCesta, bloqueando a migração de dívidas e gerando uma onda de processos.

Publicado em 12 de junho de 2026 às 10:35

Delação de Vorcaro liga gestões de Rui Costa e Jaques Wagner a esquema no CredCesta
Delação de Vorcaro liga gestões de Rui Costa e Jaques Wagner a esquema no CredCesta Crédito: Reprodução/PT

Uma delação bombástica trazida pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro colocou os bastidores políticos e financeiros da Bahia sob forte vigilância. O relato detalha um suposto esquema de favorecimento estatal estruturado para concentrar lucros milionários no setor privado à custa do bolso do funcionalismo público baiano. Segundo os depoimentos, decisões administrativas estratégicas tomadas pelas gestões do Partido dos Trabalhadores (PT) blindaram as operações do CredCesta, uma modalidade de crédito consignado com desconto direto na folha de pagamento.

A manobra acabou impedindo que os trabalhadores migrassem suas dívidas para instituições com taxas mais baratas, gerando uma crise de endividamento excessivo e milhares de ações na Justiça.

O modelo de negócio que hoje está no centro das investigações começou a ser desenhado ainda em 2007, durante o mandato do então governador Jaques Wagner. Naquela época, a administração estadual buscava uma saída para a Cesta do Povo, uma rede estatal de supermercados que acumulava prejuízos operacionais crônicos. O que nasceu como uma alternativa para resolver uma herança problemática do Estado acabou sendo repaginado e ganhou tração comercial nos anos seguintes, transformando-se em um dos produtos de crédito mais agressivos e rentáveis voltados aos servidores locais.

A engrenagem financeira ganhou força máxima no governo subsequente de Rui Costa, período em que Vorcaro e seu parceiro de negócios assumiram o controle das operações. O ponto de virada definitivo para garantir o monopólio do serviço ocorreu por meio de um decreto governamental assinado no ano de 2022. O texto oficial restringiu severamente o direito de portabilidade das dívidas, na prática aprisionando os funcionários públicos a juros rotativos abusivos e de difícil quitação, sem que eles pudessem buscar concorrência ou alívio financeiro em outros bancos.

As revelações feitas pelo delator jogam luz sobre uma proximidade considerada perigosa e prejudicial entre o poder público baiano e o sistema financeiro de grande porte. Os documentos sugerem a existência de graves conflitos de interesses e indícios de favorecimento a empresários alinhados com a cúpula partidária da região. A denúncia agora levanta debates profundos sobre a transparência no uso de mecanismos regulatórios estaduais e a urgência de medidas de proteção financeira para os milhares de servidores prejudicados pelo modelo de exclusividade.