Desigualdades regionais e raciais marcam a formalização do trabalho entre jovens no Brasil

Pesquisa realizada pela Fundação Itaú com apoio técnico do Datafolha e do Instituto Locomotiva aponta que apenas 44% dos jovens trabalhadores têm carteira assinada

Publicado em 21 de agosto de 2026 às 18:42

Formalização no mercado de trabalho entre os jovens brasileiros de 16 a 29 anos é marcada por profundas desigualdades sociais, regionais e raciais.
Formalização no mercado de trabalho entre os jovens brasileiros de 16 a 29 anos é marcada por profundas desigualdades sociais, regionais e raciais. Crédito: Tomaz Silva/Agência Brasil

A formalização no mercado de trabalho entre os jovens brasileiros de 16 a 29 anos é marcada por profundas desigualdades sociais, regionais e raciais. É o que revela a pesquisa Juventudes e o Mundo do Trabalho, realizada pela Fundação Itaú com apoio técnico do Datafolha e do Instituto Locomotiva, divulgada nesta sexta-feira (21) durante o evento Trampos do Futuro, em São Paulo. O levantamento, que ouviu 1.816 jovens de todo o país, mostra que, entre os 70% de jovens que declararam estar trabalhando, apenas 44% possuem carteira assinada.

A disparidade no acesso ao emprego formal fica evidente na comparação geográfica e étnica. A formalização é muito mais frequente entre os jovens das regiões Sul (58%) e Sudeste (55%) do que nas regiões Norte (29%) e Nordeste (20%), onde há uma dependência historicamente maior de trabalhos informais e temporários, os chamados "bicos".

Sob o recorte de raça, 49% dos jovens brancos possuem emprego formal, índice que cai para 41% entre os jovens negros. Além disso, a dependência de bicos informais atinge 12% da juventude negra, mais que o dobro do registrado entre os brancos (5%). A escolaridade também se apresenta como um fator determinante: 34% dos jovens com apenas o ensino fundamental dependem de bicos, enquanto esse percentual despenca para 3% entre os que possuem ensino superior.

O levantamento aponta que as maiores dificuldades enfrentadas para se conseguir um emprego são a falta de experiência (49%) e a alta concorrência por uma mesma vaga (39%). Atualmente, 20% dos jovens brasileiros de 16 a 29 anos estão em busca de trabalho.

Nesse cenário altamente competitivo, as redes de contatos pessoais e familiares desempenham um papel decisivo. Nada menos que 77% dos entrevistados afirmaram ter conseguido seu emprego atual por meio de uma indicação. Entre os jovens de 25 a 29 anos, a influência das indicações é ainda mais acentuada, atingindo 81%.

Embora 30% dos jovens considerem que o emprego com carteira assinada é o formato ideal para o momento presente, essa perspectiva muda quando projetada para o futuro. Em uma avaliação para os próximos cinco anos, a preferência pela segurança da carteira assinada cai para 16%, enquanto o desejo pelo trabalho autônomo ou por conta própria sobe de 28% para 42%.

Nove em cada dez jovens (90%) acreditam que a inteligência artificial (IA) vai eliminar vagas de trabalho e metade (50%) teme perder espaço no mercado devido às novas ferramentas de tecnologia. Esse temor é socialmente estratificado, afetando de forma muito mais severa os jovens das classes D/E (63%) e aqueles que estudaram até o ensino fundamental (62%) do que os jovens pertencentes às classes A/B (39%).

Texto por Suellen Godinho, com supervisão de Adrielle Brito.