Embaixador e diplomata são acusados de perseguição e intimidação em cartas enviadas ao Itamaraty

Segundo os funcionários, as condutas tornaram o ambiente de trabalho “insustentável”, e eles pedem providências para apurar os relatos e protegê-los contra possíveis retaliações.

Publicado em 16 de julho de 2026 às 17:19

O embaixador , Wladimir Valler Filho e o conselheiro Hervelter de Mattos
O embaixador , Wladimir Valler Filho e o conselheiro Hervelter de Mattos Crédito: Reprodução

O embaixador do Brasil em Hong Kong, Wladimir Valler Filho foi acusado por funcionários do Consulado-Geral de promover episódios de perseguição, intimidação e outras condutas abusivas. Duas cartas coletivas foram enviadas ao Itamaraty com as denúncias.

Os documentos, datados de 4 de março e 24 de abril de 2026, também atribuem ao conselheiro Hervelter de Mattos uma série de condutas consideradas incompatíveis com o exercício da função.

Segundo os funcionários, as condutas tornaram o ambiente de trabalho “insustentável”, e eles pedem providências para apurar os relatos e protegê-los contra possíveis retaliações.

De acordo com as cartas, decisões passaram a ser tomadas de forma unilateral, sem consulta aos demais funcionários, criando um ambiente marcado por “insegurança”, “silenciamento” e “desmotivação”.

Entre os episódios atribuídos ao embaixador na primeira carta, os funcionários afirmam que Wladimir Valler Filho cumpriria expediente reduzido e realizaria viagens particulares durante dias úteis.

As cartas também relatam que três servidoras foram retiradas das funções que exerciam sem justificativa e tiveram as atividades esvaziadas durante sua gestão.

Na segunda carta, os funcionários afirmam que uma dessas servidoras foi removida para a Secretaria de Estado das Relações Exteriores após manifestar formalmente preocupações sobre a gestão do posto.

Já em relação ao conselheiro Hervelter de Mattos, os funcionários descrevem uma série de episódios considerados ofensivos. Segundo eles, o diplomata se referia a colegas pelos apelidos “Bruxa 1”, “Bruxa 2”, “Bruxa 3” e “Fujona”.

Também teria dito “I don’t see dead people” (eu não vejo pessoas mortas, em tradução livre) ao se referir a um contratado local e chamado uma funcionária de “a empregada do cachorro”, em referência às tarefas relacionadas ao animal de estimação do embaixador.

As denúncias ainda apontam que ele ainda orientava subordinados a ignorar ou apagar e-mails enviados ao consulado. O relato aponta que havia pelo menos 129 e-mails sem resposta na caixa institucional do setor cultural, alguns enviados desde 4 de novembro de 2025. Entre eles estavam pedidos de apoio institucional, propostas culturais, contatos de instituições de ensino e ofertas de trabalho voluntário.

Também foram apontadas mudanças que trouxeram problemas a administração do consulado. Os signatários afirmam que duas auxiliares administrativas recém-contratadas passaram a atuar na contabilidade, enquanto uma servidora que havia chefiado o setor por quase três anos foi afastada dessas atividades.

O Sindicato Nacional dos Servidores do Ministério das Relações Exteriores (Sinditamaraty) publicou nas redes sociais que “continuará acompanhando a implementação das medidas decorrentes das investigações, monitorando as condições de trabalho da equipe local” e que permanecerá “à disposição para receber relatos das servidoras e dos servidores e atuar na defesa de um ambiente de trabalho seguro e respeitoso”.

Já o Ministério das Relações Exteriores confirmou o recebimento de duas cartas encaminhadas pelo Sinditamaraty e informou que as denúncias foram protocoladas na Corregedoria do Serviço Exterior, onde deram origem a um procedimento investigativo que resultou na proposta e na recente assinatura de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) pelos denunciados.