Esposa de Lito nega privilégio para conseguir medicamento experimental

Mila Seidl afirma que autorização para importar substância contra doença rara seguiu procedimento de uso compassivo e quer orientar outras famílias

Publicado em 6 de setembro de 2026 às 10:00

Mila Seidl afirma que autorização para importar substância contra doença rara seguiu procedimento de uso compassivo e quer orientar outras famílias
Mila Seidl afirma que autorização para importar substância contra doença rara seguiu procedimento de uso compassivo e quer orientar outras famílias Crédito: Redes Sociais

Nesta sexta-feira (4), a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou a importação de um medicamento experimental para o tratamento de Lito Sousa, de 59 anos, diagnosticado com a doença de Creutzfeldt-Jakob. Após a autorização, a esposa do influenciador, Mila Seidl, negou que a família tenha recebido algum tipo de privilégio e afirmou que pretende compartilhar com outros pacientes o caminho seguido para conseguir acesso à substância.

Em vídeos publicados nas redes sociais, Mila explicou que o pedido foi feito dentro das regras previstas para o uso compassivo de medicamentos. Segundo ela, a família entrou em contato diretamente com a farmacêutica, com o acompanhamento dos médicos responsáveis pelo tratamento de Lito.

“Isso não é uma regalia nossa. É um direito de qualquer pessoa que está numa situação semelhante. A dificuldade é que essas informações não são claras”, afirmou.

O medicamento autorizado é o ALN-6457, produzido pela farmacêutica Regeneron Pharmaceuticals. A substância ainda não possui registro comercial nem representante legal no Brasil e permanece em fase pré-clínica para doenças priônicas.

Isso significa que o medicamento ainda não foi testado formalmente em seres humanos para comprovar sua segurança ou eficácia no tratamento da doença.

Segundo Mila, a família inicialmente tentou incluir Lito em um estudo experimental, mas não conseguiu porque não havia mais vagas disponíveis. Ela afirma que a negativa não ocorreu por falta de requisitos médicos, mas porque o estudo já estava fechado para novos participantes.

Depois disso, a família buscou outra possibilidade de acesso à substância por meio do uso compassivo.

Mila contou que conseguiu contato com outra farmacêutica, participou de uma reunião e apresentou o caso de Lito. A empresa teria aceitado fornecer o medicamento dentro do programa de uso compassivo.

A partir daí, o pedido de importação foi formalizado pelo Hospital Israelita Albert Einstein, responsável pelo acompanhamento do influenciador.

A documentação apresentada incluiu exames, informações científicas e materiais fornecidos pela própria farmacêutica. O processo também envolveu a Anvisa, o Ministério da Saúde e a agência reguladora dos Estados Unidos, a FDA.

“A gente apresentou bastante documentação, estava bem robusto. Eu me preparei bastante”, afirmou Mila.

Mila também rebateu informações de que autoridades, empresários ou outras pessoas teriam interferido para facilitar a liberação do medicamento.

Segundo ela, o contato com a farmacêutica foi feito pela própria família, com a participação dos médicos de Lito.

“Tem gente falando que teve dedo de ministro para conseguir a medicação, que empresário rico financiou, que a Anvisa conseguiu. É a última vez que eu vou explicar: quem conseguiu a medicação fomos eu e o Lito”, disse.

Ela afirmou ainda que, até o momento, não houve uso de dinheiro público nem financiamento de terceiros para conseguir o tratamento.

O chamado uso compassivo permite, em situações específicas, que pacientes com doenças graves e sem alternativas terapêuticas tenham acesso a medicamentos ainda experimentais.

No caso de Lito, a autorização ocorreu de forma excepcional porque o ALN-6457 ainda não possui registro no Brasil e não há tratamento aprovado capaz de interromper ou reverter a evolução da doença.

Segundo a Anvisa, a análise considerou a evolução rápida e irreversível da doença, a ausência de alternativas terapêuticas e as condições relacionadas ao desenvolvimento do medicamento.

Mila afirmou que a análise dos órgãos envolvidos foi acelerada devido à urgência do caso. Mesmo assim, segundo ela, o processo levou cerca de uma semana.

“Mesmo esse fluxo mais rápido levou cerca de uma semana. E, em uma semana, a gente perdeu algumas coisas”, afirmou.

Após passar pelo processo para conseguir o medicamento, Mila afirmou que pretende explicar os caminhos e documentos necessários para outras famílias que enfrentam doenças raras.

Segundo ela, embora o uso compassivo seja previsto pelas normas, não é fácil encontrar informações claras sobre como fazer o pedido e quais órgãos participam da análise.

“Talvez isso traga luz para, a partir de agora, rever esses processos e criar fluxos um pouco mais rápidos para outras famílias”, afirmou.

Ainda não há informações divulgadas sobre a data de início do tratamento de Lito ou sobre a forma como o medicamento será administrado. A expectativa apresentada pela família é que a substância chegue ao Brasil entre sete e nove dias após a autorização.

A doença de Creutzfeldt-Jakob é uma enfermidade neurológica rara, progressiva e, atualmente, sem tratamento aprovado capaz de interromper ou reverter sua evolução.

A doença está relacionada ao acúmulo anormal de uma proteína chamada príon no cérebro, o que provoca a destruição de células nervosas. Entre os sintomas estão alterações de memória e comportamento, tremores e dificuldades de movimentação.

Lito deixou o Hospital Israelita Albert Einstein na terça-feira (1º), após mais de 20 dias internado. Desde então, passou a receber cuidados em casa, com acompanhamento de enfermeiros e uma equipe multidisciplinar.

A família esclarece que os cuidados paliativos não significam necessariamente que ele esteja em fase terminal. Esse tipo de atendimento busca controlar sintomas, reduzir o sofrimento e preservar a qualidade de vida enquanto outras possibilidades de tratamento são avaliadas.

Dados do Ministério da Saúde apontam que o Brasil registrou 547 casos da doença entre 2005 e 2021. Segundo informações reunidas pela pasta, cerca de 90% dos pacientes morrem entre seis meses e um ano após o início dos sintomas, com sobrevida média de cinco meses.