Esquema com “funcionários fantasmas” e empresas de fachada teria lavado bilhões ligados ao Banco Master

Investigação da Polícia Federal aponta Daniel Vorcaro como principal articulador de estrutura que usava contratos simulados, consultorias fictícias e transferências bilionárias

Publicado em 5 de março de 2026 às 08:13

Esquema com “funcionários fantasmas” e empresas de fachada teria lavado bilhões ligados ao Banco Master
Esquema com “funcionários fantasmas” e empresas de fachada teria lavado bilhões ligados ao Banco Master Crédito: Sede do Banco Master

Uma investigação da Polícia Federal (PF) desvendou um elaborado esquema de lavagem de dinheiro, que utilizava empresas intermediárias, contratos falsificados e pessoas registradas como prestadoras de serviços, os chamados “funcionários fantasmas”. Segundo as apurações, esse sistema teria sido responsável por movimentar bilhões de reais provenientes do Banco Master. O responsável por articular toda a rede seria Daniel Vorcaro, identificado pelas investigações como o líder do esquema.

A decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que embasou a operação detalha como uma rede de empresas com CNPJ regular firmava contratos de consultoria e prestação de serviços. Na teoria, esses contratos pareciam atividades empresariais legítimas, mas, na prática, serviam apenas para justificar transferências financeiras irregulares a servidores públicos, integrantes de uma rede de vigilância privada e outros operadores do esquema.

O caminho do dinheiro:

De acordo com as investigações, o fluxo de dinheiro começava na Super Participações e Empreendimentos S.A., uma empresa ligada ao grupo econômico do Banco Master. Esse dinheiro, então, era transferido para empresas intermediárias, como a Varajo Consultoria Empresarial Sociedade Unipessoal Ltda., controlada por Leonardo Augusto Furtado Palhares.

Para os investigadores, a Varajo funcionava como uma “conta de passagem”. O dinheiro chegava à empresa como pagamento por serviços de consultoria, mas logo era repassado a outros envolvidos no esquema, tudo sempre justificado com contratos falsificados.

Essa estrutura foi usada, ainda, para pagar integrantes de um grupo investigado conhecido como “A Turma”, liderado por Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, apelidado de “Sicário”. Segundo as investigações, Mourão recebia aproximadamente R$ 75 mil por mês, além de bônus adicionais, conforme seu desempenho.

Operadores financeiros e vínculos com o Banco Central

Os pagamentos eram feitos por Fabiano Campos Zettel, considerado o operador financeiro do esquema, e Ana Claudia Queiroz de Paiva, funcionária que realizava as transferências de dinheiro a mando de Daniel Vorcaro.

A decisão judicial revela que os repasses eram feitos principalmente, mas não exclusivamente, por meio da Super Participações.

A rede também envolvia servidores de alto escalão do Banco Central do Brasil. Paulo Sérgio Neves de Souza e Belline Santana, ambos chefes do Departamento de Supervisão Bancária (Desup), foram identificados como consultores informais do Banco Master. Para disfarçar esses pagamentos, o grupo criou contratos falsos de consultoria por meio da Varajo.

As interceptações telefônicas feitas pela PF revelam um diálogo que sugere cobrança pelos serviços prestados: “Belline cobrando. Paga?”. Segundo os investigadores, isso demonstra que os pagamentos eram, na prática, uma compensação por informações privilegiadas fornecidas ao banco.

Ocultação de ativos e movimentações financeiras

A investigação também expôs um esquema de ocultação de ativos de grande escala. Em janeiro de 2026, a PF descobriu que R$ 2.245.235.850,24 estavam depositados em uma conta em nome de Henrique Moura Vorcaro, pai de Daniel, na CBSF DTVM, uma empresa especializada em operações de lavagem de dinheiro.

Para os investigadores, a utilização do nome de um familiar visava adicionar mais camadas de ocultação ao esquema, dificultando a associação direta dos recursos ao controle de Daniel Vorcaro e ao Banco Master.

Transferências bilionárias 

Outra parte do esquema envolveu a movimentação de R$ 16,7 bilhões entre o Banco Master e o Banco de Brasília (BRB). Entre julho de 2024 e outubro de 2025, o BRB comprou carteiras de crédito que, de acordo com as apurações, eram superavaliadas ou inexistentes. Inicialmente, essas carteiras estavam vinculadas a duas associações de servidores públicos da Bahia: Asteba e Asseba.

Após as investigações, foi identificado que não havia movimentação financeira compatível com os valores mencionados. Posteriormente, a titularidade desses créditos foi transferida para a Tirreno, uma empresa de fachada, sem histórico operacional, que foi criada apenas para encobrir as transações.

Para a PF, essas operações evidenciam como contratos aparentemente legítimos foram usados como fachada para transferências ilícitas de dinheiro.

Desmantelamento de organização criminosa

A PF concluiu que as empresas intermediárias e os contratos falsos eram apenas ferramentas de uma organização criminosa que possuía altíssima capacidade de reorganização. Além disso, a estrutura era capaz de ocultar recursos e influenciar decisões de agentes públicos. O ministro André Mendonça, ao analisar as evidências coletadas, concluiu que havia indícios de uma rede com uma organização sofisticada e estruturada para a prática de corrupção e lavagem de dinheiro.

Com base nessas conclusões, o STF decretou a prisão preventiva de Daniel Vorcaro, Fabiano Campos Zettel, Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão e Marilson Roseno da Silva. Já os servidores do Banco Central envolvidos foram afastados de suas funções, com a proibição de acessar sistemas e manter contato com outros alvos da investigação.

A decisão do relator no STF enfatizou que manter os investigados em liberdade poderia comprometer as apurações e permitir a continuidade de uma rede criminosa que causou prejuízos bilionários ao sistema financeiro do país.