Publicado em 16 de outubro de 2026 às 08:52
O ex-banqueiro Daniel Vorcaro teria construído uma rede de influência sobre veículos de comunicação brasileiros por meio de patrocínios, investimentos e relações com executivos do setor. Mensagens extraídas de seu celular pela Polícia Federal (PF), reveladas pelo UOL, indicam que ele teria participado de decisões editoriais e solicitado alterações ou retirada de conteúdos em diferentes portais e publicações.>
As reportagens apontam possíveis interferências em veículos como Brazil Journal, IstoÉ, PlatôBR, Diário do Centro do Mundo (DCM) e CartaCapital. Os registros descrevem situações em que Vorcaro teria recebido textos antes da publicação, solicitado mudanças em chamadas e determinado quais assuntos ou personagens deveriam receber destaque. As revelações ampliam o debate sobre a independência editorial e a relação entre interesses comerciais e a produção jornalística.>
Brazil Journal: textos eram submetidos ao banqueiro>
Segundo a apuração, Geraldo Samor, fundador do Brazil Journal, consultava Vorcaro sobre reportagens relacionadas ao Banco Master antes de publicá-las. As mensagens indicam que o empresário solicitava alterações nos textos, que eram realizadas pelo jornalista.>
Em uma das conversas, Vorcaro pediu a retirada de uma informação sobre a reorganização societária de uma empresa ligada ao grupo financeiro. Em outro episódio, questionou a inclusão de determinados termos em uma reportagem. As trocas também mostram que o banqueiro recebia versões de conteúdos antes de sua divulgação.>
A relação envolvia ainda investimentos empresariais. Em 2023, Samor criou a BJ Conteúdo, empresa voltada a vídeos e eventos do site. A Foone, empresa ligada a Flávio Carneiro, assessor de imagem de Vorcaro, ficou com 49,86% da companhia.>
O UOL informou que procurou Samor para comentar as mensagens, mas não recebeu resposta até a publicação da reportagem.>
IstoÉ: suspeita de controle sobre pautas e personagens políticos>
As conversas também indicam uma relação entre Vorcaro, Flávio Carneiro e publicações do grupo IstoÉ. De acordo com a reportagem, Carneiro era investidor das revistas IstoÉ e IstoÉ Dinheiro, controladas por Antônio Carlos Freixo Júnior.>
Em uma das mensagens, Vorcaro afirmou que era no grupo IstoÉ que eles tinham maior controle. O material aponta que o ex-banqueiro encomendou uma capa sobre a farmacêutica Biomm, empresa na qual havia investido.>
As mensagens também indicam tentativas de controlar a publicação de conteúdos envolvendo políticos como Ciro Nogueira, Arthur Lira e Hugo Motta. Em uma conversa, Vorcaro pediu que informações sobre essas figuras não fossem publicadas sem consulta prévia.>
O UOL informou que procurou Flávio Carneiro para comentar as relações com o PlatôBR e o grupo IstoÉ, mas aguardava resposta no momento da publicação da reportagem.>
PlatôBR: mensagens indicam alterações e direcionamento político>
No PlatôBR, as conversas apontam que Vorcaro recebia textos antes da publicação e solicitava mudanças em chamadas e conteúdos. Em março de 2025, Flávio Carneiro teria combinado de enviar minutas ao banqueiro para análise prévia.>
Em um dos episódios relatados, Vorcaro questionou o destaque dado ao tema dos precatórios em uma entrevista com o então presidente do Banco de Brasília (BRB), Paulo Henrique Costa. Carneiro respondeu que faria alterações.>
As mensagens também registram pedidos relacionados à cobertura de políticos e de críticos da operação envolvendo o Banco Master e o BRB. Entre eles estava Ricardo Cappelli, que questionava a negociação. Vorcaro teria solicitado uma atuação mais agressiva do site contra o crítico.>
Os registros, conforme publicados pelo UOL, levantam questionamentos sobre a autonomia da redação e o uso de canais de comunicação para defender interesses empresariais e políticos. >
DCM: mensagens apontam acordo para evitar críticas>
No Diário do Centro do Mundo (DCM), a apuração identificou mensagens que indicariam um acordo financeiro para evitar publicações negativas sobre Vorcaro e o Banco Master.>
Segundo as conversas atribuídas a Felipe Mourão, responsável pela reputação digital do banqueiro, a negociação previa pagamentos mensais e a possibilidade de publicação de conteúdos sobre pessoas escolhidas pelo grupo. Em outubro de 2024, após uma publicação desfavorável, Vorcaro teria pedido que fosse estabelecida uma parceria com o site.>
Em uma das mensagens, Mourão informou ao banqueiro que o acordo estava fechado, usando a expressão “Dcm está pago e fechado”. O material também aponta que um texto crítico ao Master teria sido retirado após solicitação de Vorcaro.>
O DCM foi procurado para se manifestar sobre as informações, e o veículo informou que publicaria o posicionamento assim que fosse recebido. >
CartaCapital: patrocínio e negociação societária>
A relação com a CartaCapital envolvia contratos publicitários e conversas sobre uma possível participação societária. Conforme a reportagem, o Banco Máxima, que posteriormente passou a se chamar Banco Master, firmou em 2021 um contrato de patrocínio de cinco anos com a revista. O banco também havia antecipado R$ 300 mil à publicação em dezembro de 2020.>
As mensagens indicam que, no início de 2021, a diretora da revista, Manuela Carta, conversou com Vorcaro sobre a necessidade de recursos para pagar salários. Em 2023, os dois também discutiram a possibilidade de o banqueiro se tornar sócio da publicação, mas a negociação não avançou.>
O UOL relatou ainda que, em agosto de 2023, a revista submeteu ao empresário uma decisão sobre a publicação de uma reportagem que estava sendo preparada.>
Em resposta à reportagem, Manuela Carta afirmou que os contratos eram acordos regulares de publicidade e negou que Vorcaro tivesse solicitado a publicação de notícias favoráveis ou interferido no conteúdo jornalístico. Ela também ressaltou que a separação entre as áreas comercial e editorial deve ser preservada.>
Caso Metrópoles amplia questionamentos>
As revelações sobre os demais veículos vieram na sequência de outra reportagem sobre a relação entre Vorcaro e o portal Metrópoles.>
Segundo o levantamento publicado em 15 de outubro, pelo menos 14 textos foram enviados ao ex-banqueiro antes da publicação, e 11 foram alterados após pedidos dele. A apuração também identificou duas reportagens publicadas a pedido de Vorcaro.>
A relação direta com a direção do portal teria se estabelecido em 2024, mesmo ano em que o Banco Master fechou um contrato publicitário de R$ 20 milhões com o veículo.>
A CEO do grupo Metrópoles, Lilian Tahan, afirmou que consultar fontes para verificar se uma reportagem reflete corretamente o contexto apresentado é uma prática que adota com empresários, políticos e integrantes do Judiciário. Ela negou que o contrato publicitário tivesse relação com a cobertura jornalística e citou reportagens críticas sobre empresas ligadas a Vorcaro.>
Debate sobre independência jornalística>
As mensagens divulgadas levantam questionamentos sobre os limites entre publicidade, investimento empresarial e autonomia editorial. Contratos comerciais e patrocínios são práticas comuns no setor de comunicação, mas a situação ganha outra dimensão quando há indícios de que anunciantes ou investidores tenham acesso antecipado a reportagens e consigam influenciar decisões sobre conteúdo, enfoque ou publicação.>
É importante distinguir, porém, os registros de conversas revelados pela imprensa de eventuais conclusões judiciais sobre a conduta de cada envolvido. As mensagens constituem elementos de apuração jornalística e investigação, mas as responsabilidades individuais e as circunstâncias de cada relação precisam ser avaliadas com base no conjunto das provas e nas manifestações dos citados.>
O caso também reforça a importância da transparência sobre relações financeiras entre empresas e veículos de comunicação, além da preservação de critérios editoriais independentes, para que interesses comerciais não se sobreponham ao compromisso de informar o público.>
Texto por Pedro Moraes.>