Publicado em 30 de março de 2026 às 13:25
A morte de uma menina de apenas 12 anos, registrada no último domingo (29), mergulhou Iguatu em um clima de profunda tristeza e levantou um alerta urgente sobre um tema ainda cercado por desconhecimento: a saúde mental infantil. A partida precoce da criança, identificada como Maria, causou forte comoção entre familiares, amigos e moradores e reacendeu a discussão sobre como o sofrimento emocional de crianças e pré-adolescentes ainda costuma passar despercebido.>
Em meio à dor que tomou conta da comunidade, especialistas chamam atenção para a necessidade de olhar com mais cuidado para mudanças comportamentais que, muitas vezes, são interpretadas como “fase” ou “birra”, mas podem esconder quadros mais graves de ansiedade, depressão e sofrimento psíquico.>
De acordo com a psicóloga clínica e hospitalar Rose Daise Melo do Nascimento, chefe da Unidade de Atenção à Saúde da Criança e do Adolescente do Hospital Universitário Bettina Ferro de Souza, vinculado à Universidade Federal do Pará, casos como esse evidenciam um nível de sofrimento que, na infância, costuma ser mascarado e muitas vezes negado pelos adultos.>
“Esse caso ilustra um nível de sofrimento grave que tende a ser muito mascarado ou negado na infância e que demanda compreensão do adoecimento psíquico nessa fase da vida”, afirma a especialista.>
Segundo ela, quando esse adoecimento não é reconhecido e tratado, ele pode se agravar ao longo do tempo e se manifestar de forma ainda mais intensa na adolescência, período marcado por mudanças hormonais, emocionais e comportamentais.>
“A adolescência e a puberdade, com toda a sua carga hormonal, potencializam atos impulsivos e predispõem crianças com sofrimento crônico não tratado adequadamente a esses riscos”, ressalta.>
Diferentemente dos adultos, crianças e adolescentes nem sempre conseguem verbalizar o que estão sentindo. Em vez de expressarem tristeza, medo, ansiedade ou frustração de forma direta, elas costumam demonstrar o sofrimento por meio de sinais não verbais.>
“O sofrimento emocional nas crianças costuma ser atípico, não falado, e sim atuado”, explica Rose. “Ele aparece em atos, mudanças de comportamento e até em sintomas físicos”.>
Entre os principais sinais de alerta, a especialista destaca alterações no sono, mudanças no apetite, queda no desempenho escolar, isolamento social, explosões de agressividade e sintomas físicos recorrentes.>
“Os pais devem observar doenças frequentes, mudanças no humor, prejuízo no rendimento acadêmico, isolamento e explosões de raiva”, pontua.>
Ela também chama atenção para situações que, à primeira vista, podem parecer acidentes comuns. “A predisposição a acidentes recorrentes e envenenamentos considerados acidentais pode, muitas vezes, mascarar tentativas de exposição ao risco”, afirma.>
Para a psicóloga, um dos maiores erros ainda cometidos pelos adultos é acreditar que crianças são novas demais para enfrentar sofrimento emocional. “Pensar que criança não sofre é um dos principais fatores de risco para cronificar quadros clínicos que vão explodir na adolescência”, alerta.>
Segundo ela, a dor emocional infantil existe e pode surgir desde os primeiros anos de vida. “O sofrimento infantil é muito diferenciado e existe desde o ventre”, destaca. “Hoje, no hospital, tratamos casos de ansiedade e depressão até em bebês”.>
Outro fator decisivo é o ambiente familiar. Histórico de negligência, abandono, violência física, sexual ou psicológica, ausência de afeto, instabilidade dentro de casa e exposição a conflitos constantes estão entre os principais fatores de risco.>
“Um ambiente sintonizado e acolhedor favorece um bom estado de saúde mental. Já um ambiente instável, inseguro e caótico prejudica diretamente a criança”, explica.>
Além da família, a escola também tem papel essencial na identificação precoce desses sinais.>
“Por volta dos sete anos, a escola passa a ser um segundo grande centro de validação e suporte emocional da criança”, afirma a especialista. Professores e coordenadores precisam estar atentos às mudanças de comportamento, isolamento e queda no rendimento.>
Sobre a forma de acolher os sentimentos, Rose destaca que a infância exige uma abordagem diferente da usada com adultos.>
“Muitas vezes, o grande erro é querer conversar com a criança como se ela tivesse recursos emocionais para racionalizar tudo”, diz. “Com criança, a melhor via de comunicação é o brincar, porque é ali que ela projeta seus conflitos”.>
Em relação às redes sociais, bullying e pressão social, a especialista reconhece o impacto, mas pondera que esses fatores geralmente funcionam como gatilhos.>
“São fatores secundários. Normalmente, eles desencadeiam um sofrimento que já vem se arrastando há algum tempo”, analisa.>
Ela reforça que situações extremas não acontecem de forma repentina. “Ninguém se mata do nada. Um suicídio foi muito mentalizado e ensaiado”, afirma.>
A recomendação é buscar ajuda profissional assim que surgirem sinais persistentes de tristeza profunda, desesperança, autolesões, isolamento, crises de ansiedade ou mudanças bruscas de humor. “Ao perceber falas de desesperança, tristeza intensa ou alterações abruptas de comportamento, a orientação é procurar imediatamente um psicólogo ou psiquiatra especialista em infância”, conclui.>
O caso que abalou Iguatu deixa, além da dor, um alerta importante: crianças também sofrem, e esse sofrimento precisa ser levado a sério.>