Publicado em 18 de setembro de 2026 às 15:35
O Ministério Público junto ao Tribunal de Contas da União (TCU) pediu a suspensão do reajuste do Bolsa Família anunciado pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na quinta-feira (17). O órgão também quer que o TCU investigue possíveis irregularidades na medida.>
O pedido foi apresentado pelo subprocurador-geral Lucas Rocha Furtado. Ele questiona se há recursos previstos no Orçamento para cobrir o aumento e afirma que o decreto não apresenta estimativa do impacto financeiro, nem indica de onde virão os recursos. O documento também não demonstraria compatibilidade com a Lei Orçamentária Anual (LOA) de 2026 e com a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO).>
Para Furtado, a falta dessas informações pode contrariar exigências da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) para a criação ou ampliação de despesas públicas. A legislação prevê, entre outros pontos, a apresentação do impacto orçamentário e a comprovação de compatibilidade com a LOA, o Plano Plurianual (PPA) e a LDO.>
O subprocurador também questiona se o governo poderia alterar os valores do programa por meio de decreto. Na representação, ele sustenta que a medida teria ido além do poder regulamentar do presidente da República.>
“O decreto não se limita a regulamentar a Lei nº 14.601/2023 — ele inova na ordem jurídica, criando obrigações financeiras novas e ampliando despesas sem lastro legal específico”, afirma o documento.>
Furtado pediu que Lula e os ministros que assinaram o decreto sejam notificados para apresentar, em até 15 dias, justificativas para a medida. Eles também deverão informar se existe dotação orçamentária e apresentar a estimativa do impacto financeiro.>
A representação solicita ainda que a Secretaria de Orçamento Federal e a Secretaria do Tesouro Nacional esclareçam se há recursos destinados ao reajuste. O subprocurador quer também uma decisão cautelar para suspender os efeitos do decreto de forma imediata.>
Os pagamentos com os novos valores estão previstos para começar em 1º de outubro. Segundo Furtado, a continuidade dos repasses pode provocar “dano ao erário de difícil ou impossível reparação”, já que seria difícil recuperar os valores depois de pagos aos beneficiários.>
Questionamento eleitoral>
A representação também levanta dúvidas sobre o momento em que o reajuste foi anunciado. Para Furtado, a publicação do decreto em setembro, às vésperas das eleições presidenciais, “suscita fundado receio de desvio de finalidade político-eleitoral”.>
O subprocurador afirma que a atualização de um programa de transferência de renda com grande número de beneficiários pode ter influência no contexto eleitoral. O argumento ainda será analisado pelo TCU.>
Novos valores>
O decreto atualizou os benefícios com base na variação acumulada do Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) entre março de 2023 e agosto de 2026.>
O valor mínimo por família passou para R$ 691. O Benefício Primeira Infância foi reajustado para R$ 173 por criança de até sete anos, enquanto o Benefício de Renda de Cidadania passou a R$ 164 por integrante. Os novos valores começam a valer em 1º de outubro.>
Segundo o Ministério do Planejamento e Orçamento, o reajuste terá impacto adicional de R$ 5,8 bilhões em 2026. O governo afirma que pretende remanejar recursos de despesas que devem terminar o ano com sobra, principalmente da Previdência Social.>
Para 2027, a estimativa é de cerca de R$ 22 bilhões em despesas adicionais. O valor deverá ser considerado na adequação da proposta orçamentária enviada ao Congresso Nacional.>
Antes da publicação do decreto, a Advocacia-Geral da União (AGU) analisou a medida e concluiu que não havia impedimento jurídico para a atualização.>
O governo sustenta que a medida não cria um novo benefício nem muda as regras de acesso ao Bolsa Família. Segundo o Executivo, o decreto apenas corrige os valores de um programa que já existe, com base na autorização prevista na legislação que regulamenta o benefício.>