Mulheres lideram a queda do analfabetismo e superam os homens em escolaridade no país

Novo balanço do IBGE mostra avanço na alfabetização do país, mas acende sinal amarelo para o descompasso entre o modelo de ensino atual e o interesse das novas gerações.

Publicado em 19 de junho de 2026 às 10:36

Desinteresse e necessidade de trabalhar fazem Brasil ter 7,7 milhões de jovens fora da escola
Desinteresse e necessidade de trabalhar fazem Brasil ter 7,7 milhões de jovens fora da escola Crédito: Reprodução/Redes sociais

O Brasil deu um passo histórico na educação, embora ainda carregue marcas profundas de desigualdade social e racial. A taxa de analfabetismo no país recuou para 4,9% no último ano, consolidando o menor patamar já registrado desde o início da série histórica em 2016. Os dados fazem parte da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua: Educação, divulgada nesta sexta-feira pelo IBGE, e revelam que o país encerrou o período com 8,4 milhões de cidadãos de 15 anos ou mais que ainda não sabem ler e escrever, o que representa uma redução de 592 mil pessoas na comparação com o ano anterior.

O avanço mais expressivo vem da consolidação das novas gerações. Entre a população de 15 a 59 anos, o índice de analfabetismo despencou para 2,6%, provando que o acesso à alfabetização na infância se fortaleceu. Em contrapartida, o problema se concentra fortemente na população idosa: 58% de todos os analfabetos do país têm 60 anos ou mais.

É nessa faixa que o abismo social brasileiro fica escancarado, já que a taxa de analfabetismo entre idosos pretos ou pardos chega a 20,6%, um número quase três vezes maior do que o registrado entre idosos brancos. O Nordeste também acende um alerta geográfico, concentrando 57,4% do total de analfabetos do país.

Por outro lado, as mulheres têm liderado a virada de jogo na escolarização. Pela primeira vez na história, a taxa de analfabetismo entre as mulheres mais velhas passou a ser menor do que a dos homens na mesma idade. Além disso, elas estudam por mais tempo: quase 60% das mulheres com 25 anos ou mais concluíram a educação básica obrigatória, superando os homens nesse quesito. No recorte por raça, a distância entre brancos e negros que terminam a escola diminuiu ao longo da última década, mas ainda permanece em patamares elevados, com uma diferença de 13,6 pontos percentuais entre os dois grupos.

O grande desafio para o futuro da educação no país está em manter os adolescentes e jovens na sala de aula. O relatório do IBGE mapeou que 7,7 milhões de jovens entre 14 e 29 anos não concluíram o ensino médio, sendo a grande maioria composta por homens e por pessoas pretas ou pardas. O principal vilão para a evasão escolar é a realidade financeira: 43% abandonaram os estudos por causa da necessidade de trabalhar.

O segundo motivo, no entanto, traz um alerta de comportamento: o desinteresse pelos estudos voltou a crescer, afetando um em cada quatro jovens fora da escola, o que sugere um descompasso entre o modelo de ensino atual e o que os estudantes buscam para suas vidas.

Por fim, a pesquisa trouxe um panorama sobre a base e o topo da trajetória juvenil. Na primeira infância, a maioria das crianças de até 3 anos que estão fora da creche permanece em casa por opção dos próprios pais, mas a falta de vagas ou de instituições próximas ainda afeta mais de 30% das famílias.

Já na transição para a vida adulta, o levantamento mostra que o percentual de jovens que não trabalham, não estudam e nem fazem cursos de qualificação caiu para 17,5% do total de 46,6 milhões de brasileiros nessa faixa etária, indicando que uma parcela maior dessa geração está conseguindo encontrar algum espaço de inclusão produtiva.