Publicado em 21 de abril de 2026 às 21:07
Há doenças que roubam o corpo. O Alzheimer rouba a história de uma vida. Primeiro, um nome que não vem. Depois, o rosto do filho que se torna um estranho. No fim, a própria identidade que se dissolve como papel na chuva.>
Mas, pela primeira vez em anos, há um novo capítulo sendo escrito nessa narrativa dolorosa.>
Chama-se lecanemabe. Desenvolvido pelas farmacêuticas Eisai e Biogen, o medicamento acaba de ter seu preço definido pela CMED (Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos) e deve chegar às farmácias brasileiras no fim de junho de 2026. A Anvisa já deu seu aval em dezembro de 2025.>
Como funciona a nova arma contra o esquecimento>
O Alzheimer tem um dos seus gatilhos no acúmulo de placas tóxicas chamadas beta-amiloide. Elas se alojam no cérebro como entulhos numa estrada, bloqueando a passagem de informações e destruindo neurônios — especialmente na região ligada à memória.>
O lecanemabe age como uma equipe de limpeza especializada. Seu diferencial, segundo os fabricantes, é um mecanismo duplo: ele não só remove as placas já formadas, como também neutraliza o processo que dá origem a novas placas, freando a progressão da doença.>
O que os números dizem>
Os ensaios clínicos mostraram uma redução de 27% no declínio cognitivo ao longo de 18 meses de tratamento. Para os laboratórios, esse percentual se traduz em algo mais humano: "mais tempo de memória preservada, independência e dignidade".>
O principal estudo que embasa a aprovação foi publicado no The New England Journal of Medicine, uma das revistas científicas mais respeitadas do mundo. Pesquisadores acompanharam 1.795 pacientes com Alzheimer em estágio inicial durante um ano e meio. O veredito: segurança e eficácia confirmada.>
Hoje, o lecanemabe já está disponível em 51 países. O Brasil será o 52º. O tratamento é endovenoso, aplicado a cada duas semanas em centros de infusão, sob supervisão médica. A dosagem varia conforme o peso do paciente.>
Mas o preço do novo medicamento não é para todos. A CMED definiu que o valor mensal para um paciente de 70 kg ficará entre R$ 8.108,94 e R$ 11.075,62, a depender dos impostos de cada estado.>
O preço leva em conta três fatores: o praticado em outros países, o grau de inovação do produto e os benefícios clínicos comprovados.>
A dura realidade do acesso>
Por enquanto, a boa notícia tem um endereço exclusivo: o bolso de quem pode pagar.>
Não há previsão de cobertura por planos de saúde. Também não há, ao menos por ora, incorporação ao SUS. Isso significa que, no curto prazo, o medicamento será acessível apenas a uma parcela pequena da população, num país onde mais de 1,2 milhão de pessoas vivem com Alzheimer, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).>
Um avanço, ainda que a passos lentos>
O lecanemabe não é a cura. A doença continua ali, silenciosa, tecendo sua teia. Mas ele representa uma mudança de era no tratamento: pela primeira vez, há remédios que atacam a causa do problema, não apenas seus sintomas.>
O Brasil já deu um passo semelhante em 2025, com a chegada do donanemabe, da Eli Lilly. Agora, com o lecanemabe, o país amplia seu arsenal contra o que a medicina convencional chamava, até pouco tempo, de "doença sem volta".>
Com informações de revista Veja >