Publicado em 20 de agosto de 2026 às 16:00
Imagens obtidas pela polícia mostram uma fila de pessoas que teriam participado de um curso de operação de drones oferecido por traficantes no Complexo da Penha, na Zona Norte do Rio de Janeiro. A capacitação teria ocorrido há cerca de duas semanas e, segundo as investigações, faz parte do avanço do uso desses equipamentos pelo crime organizado. Além de monitorar territórios e acompanhar a movimentação policial, os drones passaram a ser adaptados para lançar granadas contra grupos rivais.>
A utilização dos equipamentos em ataques também tem provocado preocupação fora das comunidades. A polícia identificou drones sobrevoando regiões próximas às rotas utilizadas por helicópteros e por aeronaves que chegam e saem do Aeroporto de Jacarepaguá, na Zona Oeste. Segundo um piloto ouvido pelo RJ2, uma colisão entre um drone e uma aeronave pode causar danos graves e até comprometer o controle do voo, aumentando os riscos para passageiros e tripulantes.>
Na semana passada, criminosos utilizaram um drone equipado com uma granada para atacar rivais na comunidade do Canal, em Vargem Grande. O explosivo atingiu um trailer, mas ninguém ficou ferido. De acordo com a Polícia Militar, traficantes alugaram um apartamento na cobertura de um prédio no Recreio dos Bandeirantes para fazer o lançamento. O equipamento percorreu cerca de dois quilômetros até o ponto do ataque, passando por um terreno vazio, pelo Rio Morto e sobre áreas residenciais.>
Dois homens suspeitos de participação na ação foram presos pela Polícia Militar. Com eles, os agentes encontraram outras granadas de fabricação caseira, dinheiro e o drone utilizado no ataque. O caso reforçou a preocupação das autoridades com a facilidade de aquisição desses equipamentos, que são vendidos legalmente e podem ser encontrados inclusive pela internet. Apesar disso, a utilização de drones segue regras de segurança e há restrições para voos próximos a aeroportos e helipontos.>
Estruturas para esconder ruas>
O avanço dos drones também provocou mudanças na estrutura de algumas comunidades do Rio. Imagens aéreas obtidas pelo RJ2 mostram ruas e vielas do Complexo do Alemão, na Zona Norte, parcialmente cobertas por estruturas construídas nos últimos meses. O levantamento foi realizado pela inteligência da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core), da Polícia Civil, que comparou imagens de satélite de novembro de 2025 com registros aéreos feitos em fevereiro de 2026.>
Em alguns pontos, locais que antes podiam ser vistos do alto passaram a ficar escondidos por telhados. Uma área utilizada como estacionamento, por exemplo, recebeu uma cobertura de alvenaria. Em outro ponto, uma laje ganhou uma piscina. Segundo a polícia, as estruturas foram construídas em uma região considerada de difícil acesso por terra e pelo ar e que seria utilizada como esconderijo pela cúpula do Comando Vermelho.>
Para os investigadores, os telhados podem ter sido instalados para dificultar ataques de facções rivais com explosivos lançados por drones. Ao mesmo tempo, as coberturas dificultam o monitoramento realizado pela polícia por meio de imagens aéreas. Marcos Motta, coordenador da Coordenadoria de Operações com Aeronaves Não Tripuladas (Coant), afirmou que essa mudança representa um obstáculo para o trabalho de inteligência e acompanhamento das comunidades.>
Situação semelhante foi identificada no Rebu, em Senador Camará, na Zona Oeste do Rio. Uma rua localizada às margens da linha do trem também está quase totalmente coberta. Em abril, a Polícia Civil e a Prefeitura de Niterói destruíram parte de uma estrutura semelhante construída em uma comunidade do município.>
Drones usados como armas>
De acordo com a Polícia Civil, atualmente existem 18 ocorrências envolvendo bombas lançadas por drones sob investigação. A corporação, no entanto, acredita que o número real de casos seja maior. Além dos ataques, os equipamentos são utilizados pelo crime organizado para observar áreas dominadas por facções, acompanhar operações policiais e identificar a movimentação de grupos rivais.>
Dados do Disque-Denúncia também apontam crescimento nos relatos relacionados ao uso de drones com explosivos. O primeiro registro de um equipamento equipado com uma granada ocorreu em 2023. No ano seguinte, foram quatro denúncias. Em 2025, o número saltou para 73 registros envolvendo traficantes e outros 14 relacionados a milicianos.>
Para a polícia, o treinamento de novos operadores mostra que o uso desses equipamentos deixou de ser uma prática restrita a poucos integrantes das organizações criminosas. A capacitação de outras pessoas amplia a capacidade de monitoramento e de realização de ataques à distância, tornando os drones uma ferramenta cada vez mais utilizada pelo crime organizado no Rio de Janeiro.>