Para fortalecer o combate ao crime organizado, MPF define Belém como sede do Gaeco regional

Belém será sede do Gaeco 7ª Região, responsável por apoiar investigações complexas em sete estados da Amazônia

Publicado em 27 de agosto de 2026 às 08:50

Para fortalecer combate ao crime organizado, MPF define Belém como sede do Gaeco regional - 
Para fortalecer combate ao crime organizado, MPF define Belém como sede do Gaeco regional -  Crédito: Reprodução/MPF

O Ministério Público Federal (MPF) está ampliando sua estrutura de enfrentamento ao crime organizado no país e colocou Belém em uma posição estratégica dentro dessa nova configuração. A partir de 1º de outubro, a capital paraense será sede do Gaeco 7ª Região, um dos oito núcleos regionais criados para reforçar a atuação do órgão em investigações de organizações criminosas com atuação nacional ou interestadual.

A mudança foi oficializada por portaria publicada no Diário Oficial da União nesta quarta-feira (26) e representa uma tentativa de dar ao combate ao crime organizado uma estrutura mais integrada, capaz de acompanhar organizações que não estão limitadas às fronteiras de um único estado.

Na prática, o novo modelo cria uma espécie de rede regional de atuação do Ministério Público Federal. Os Gaecos regionais terão a missão de auxiliar procuradores da República e procuradores regionais da República em investigações criminais consideradas mais complexas, especialmente aquelas que exigem articulação entre diferentes unidades do MPF.

Belém no centro da estratégia para a Amazônia

A escolha de Belém como sede do Gaeco da 7ª Região chama atenção pelo alcance territorial atribuído à estrutura. O núcleo terá atuação relacionada a Pará, Acre, Amapá, Amazonas, Rondônia e Roraima, além da participação de procuradores regionais da República.

Serão 16 ofícios especiais vinculados ao Gaeco 7ª Região: três no Pará e dois em cada um dos estados do Acre, Amapá, Amazonas, Rondônia e Roraima, além de três ofícios destinados a procuradores regionais da República.

A dimensão territorial ajuda a explicar a importância da estrutura. São estados com extensas fronteiras, áreas de difícil acesso, grandes corredores logísticos e uma série de atividades econômicas e ambientais que podem ser exploradas por grupos criminosos.

Nesse cenário, o crime organizado também pode operar de maneira descentralizada. Uma organização pode ter integrantes em diferentes estados, movimentar recursos em uma unidade da Federação, utilizar outra como rota logística e manter estruturas de apoio em uma terceira. Investigações desse tipo exigem justamente uma atuação que consiga ultrapassar a lógica isolada de cada estado.

É nesse ponto que a instalação do Gaeco Regional em Belém ganha relevância.

Mais do que abrigar uma unidade administrativa, a capital paraense passa a funcionar como um dos centros de articulação do MPF no enfrentamento regional às organizações criminosas.

Por que um Gaeco Regional é importante?

Os Grupos de Apoio ao Enfrentamento ao Crime Organizado (Gaecos) são estruturas especializadas destinadas a dar suporte a investigações que, pela complexidade, dimensão ou quantidade de envolvidos, demandam uma atuação diferenciada.

O foco não é substituir o procurador responsável por determinado caso, mas oferecer capacidade adicional para enfrentar investigações que podem envolver estruturas criminosas sofisticadas, diferentes estados e grandes volumes de informações.

A nova estrutura do MPF prevê 118 ofícios especiais, ocupados por procuradores da República e procuradores regionais da República. Os integrantes serão designados pelo procurador-geral da República para mandatos de dois anos, permitida a prorrogação.

A proposta é justamente aumentar a capacidade de investigação e permitir que o Ministério Público acompanhe organizações criminosas que funcionam em rede.

Um problema que não respeita fronteiras

A importância da regionalização fica ainda mais evidente quando se considera a própria dinâmica do crime organizado.

Organizações criminosas não necessariamente concentram todas as suas atividades em uma mesma cidade ou estado. Redes de tráfico, lavagem de dinheiro, corrupção e outras modalidades de criminalidade podem envolver pessoas, empresas, imóveis, contas bancárias e rotas distribuídas por diferentes localidades.

Quando isso acontece, uma investigação fragmentada pode dificultar a identificação de toda a estrutura criminosa.

A existência de um Gaeco Regional permite maior capacidade de integração entre procuradores que atuam em diferentes estados. A ideia é facilitar a troca de informações, a construção conjunta de estratégias investigativas e o acompanhamento de casos que tenham conexões interestaduais.

Na Amazônia, essa característica ganha uma dimensão particular.

A região possui enorme extensão territorial e desafios logísticos próprios. Ao mesmo tempo, é atravessada por rotas terrestres, fluviais e aéreas que podem ser utilizadas tanto para atividades legais quanto por redes criminosas.

Ter uma estrutura regionalizada com sede em Belém significa, portanto, aproximar a capacidade de articulação do MPF das particularidades da região.

Gaeco Nacional e oito núcleos regionais

Os oito Gaecos regionais passam a integrar, juntamente com o Gaeco Nacional, o chamado Sistema Gaeco/MPF.

O modelo será baseado na autonomia recíproca e na cooperação. O Gaeco Nacional, formado por 15 ofícios especiais, terá a coordenação do sistema, enquanto os núcleos regionais atuarão dentro de suas respectivas atribuições.

Segundo o subprocurador-geral da República e coordenador do Gaeco Nacional, José Adonis Callou de Araújo Sá, a nova estrutura permitirá uma atuação mais integrada e estratégica contra organizações criminosas.

A lógica é importante: o crime organizado ganha eficiência justamente quando consegue conectar diferentes pontos de uma cadeia. A resposta do Estado precisa ter capacidade semelhante de integração.

Belém ganha relevância institucional

A instalação do Gaeco 7ª Região também amplia a importância de Belém dentro da estrutura nacional do Ministério Público Federal.

A capital paraense já ocupa uma posição geográfica estratégica para a Amazônia. Agora, passa a concentrar uma estrutura especializada com atribuição regional voltada ao enfrentamento de investigações complexas.

Isso pode representar um ganho não apenas para o Pará, mas para os demais estados abrangidos pelo núcleo.

Ao reunir procuradores e estrutura especializada em uma atuação regional, o MPF cria melhores condições para identificar conexões entre grupos criminosos, acompanhar fluxos financeiros e logísticos e desenvolver investigações que ultrapassem os limites estaduais.

Em outras palavras, Belém não será apenas a sede física de um novo Gaeco. A cidade passa a integrar, de maneira mais direta, a estratégia nacional do Ministério Público Federal contra o crime organizado, e como um dos principais pontos dessa estratégia na Amazônia.

A nova estrutura começa a funcionar em 1º de outubro, quando os oito Gaecos regionais deverão iniciar suas atividades.

Para a região amazônica, a mudança representa uma aposta em inteligência, integração e atuação coordenada, três elementos cada vez mais necessários diante de organizações criminosas que também aprenderam a operar para além das fronteiras de estados e municípios.