Queda de Maduro impacta pouco economia e efeito político é incerto, avalia Capital Economics

A queda de Nicolás Maduro ocorreu neste sábado (03) após Trump autorizar uma ação de captura do mandatário venezuelano

Publicado em 4 de janeiro de 2026 às 11:22

Nicolás Maduro, presidente da Venezuela, capturado na madrugada deste sábado (3
Nicolás Maduro, presidente da Venezuela, capturado na madrugada deste sábado (3 Crédito: Redes Sociais/X/Donald Trump

A Capital Economics descarta consequências significativas a curto prazo para a economia global por conta da queda do presidente de Venezuela, Nicolás Maduro, durante ataque dos Estados Unidos. No entanto, as ramificações políticas e geopolíticas devem se reverberar mundo afora, com o alinhamento político ainda incerto no país depois dos eventos do fim de semana, avalia a consultoria.

A Venezuela representa hoje 0,1% do Produto Interno Bruto (PIB) global, e produz cerca de 1 mil barris por dia (mbpd, na sigla em inglês), ou apenas 1% do total global. É o 18º maior produtor de petróleo do mundo. Na década de 1970, o país tinha peso de cerca de 1% do PIB mundial e produzia cerca de 3,5 milhões de barris de petróleo por dia, ou 8% da oferta global.

"A importância econômica global da Venezuela diminuiu significativamente nos últimos 50 anos", avalia o economista-chefe da Capital Economics, Neil Shearing, em relatório a clientes, neste domingo.

De acordo com ele, essa perda de importância reflete o "longo e constante" colapso da indústria petrolífera da Venezuela, resultado de décadas de má gestão econômica. "Essa má gestão resultou em hiperinflação, queda de 70% no PIB real e emigração em massa na década de 2010 - amplamente considerada a pior crise econômica dos últimos tempos, fora de zonas de guerra", detalha

Em teoria, diz, a Venezuela poderia novamente se tornar uma grande produtora uma vez que ainda afirma possuir as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo. O presidente dos EUA, Donald Trump, disse ontem que enviará petroleiras ao país para reconstruir a indústria local e ampliar a produção nos próximos anos. A Chevron era até então a única petroleira americana que ainda operava na Venezuela.

"Mas teoria e realidade divergem acentuadamente. Se nada mais ocorrer, os alinhamentos geopolíticos na Venezuela permanecem incertos após a captura de Maduro", avalia Shearing.

Dentre os desafios, o especialista cita o fato de a infraestrutura petrolífera da Venezuela ter sido fortemente degradada por décadas de subinvestimento, com elevados custos para extrair e processar. Mesmo que a produção fosse restaurada com sucesso aos níveis vistos há uma década - cerca de 3 mbpd -, isso adicionaria apenas cerca de 2% à oferta global, calcula. A Capital Economics espera que o crescimento da oferta mundial de petróleo em 2026 empurre os preços da commodity para baixo, a US$ 50 por barril.

Shearing também avalia que uma recuperação de médio prazo na oferta de petróleo por parte da Venezuela poderia ser ofuscada por mudanças entre os principais produtores. Além disso, um maior controle dos EUA sobre a indústria petrolífera da Venezuela para reduzir a dependência das importações de petróleo canadense enfrenta as "duras realidades de escala, geografia e infraestrutura", diz.

"A Venezuela é simplesmente muito pequena, muito distante e muito limitada para desafiar o Canadá. Em suma, não acreditamos que os eventos do fim de semana alterem materialmente os mercados globais de petróleo ou, por extensão, as perspectivas econômicas globais", afirma o economista.

Para ele, onde as consequências serão sentidas é na política e na geopolítica, com o ataque à Venezuela sendo antecedido pelo aumento da força militar americana no Caribe. Se a futura administração venezuelana fosse mais alinhada aos EUA, isso representaria outro grande produtor de commodities se afastando da China, a exemplo da Arábia Saudita que também se aproximou dos americanos nos últimos meses. "Os países que são mais propensos a se afastar dos EUA são aqueles mais atingidos pelas políticas comerciais agressivas da administração Trump. A Índia é o caso mais importante", diz Shearing.

Um ponto de tensão-chave a observar, afirma, é se as mesmas preocupações sobre o tráfico de drogas e o crime organizado que foram usadas para justificar a ação contra Maduro serão usadas para extrair concessões do México antes da revisão do Acordo Estados Unidos-México-Canadá (USMCA, na sigla em inglês) no fim deste ano. "Ou se essas ameaças tornarem o México menos disposto a ceder terreno", conclui.