'Turismo não perde com a mudança na escala 6x1', alerta especialista

O turismo é um dos setores que mais nos obriga a amadurecer esse debate, defende a ex-secretária executiva do Ministério do Turismo, Ana Carla Lopes.

Publicado em 9 de junho de 2026 às 16:23

Ana Carla Lopes é advogada, especialista em Ciência Política, Administração e Gestão Pública. Foi secretária executiva do Ministério do Turismo entre 2023 e 2026.
Ana Carla Lopes é advogada, especialista em Ciência Política, Administração e Gestão Pública. Foi secretária executiva do Ministério do Turismo entre 2023 e 2026. Crédito: Divulgação. 

A aprovação, pela Câmara dos Deputados, da proposta que altera a escala 6x1 recolocou no centro do debate nacional uma discussão que vai além das relações de trabalho. Ela também fala sobre desenvolvimento econômico, produtividade, turismo e qualidade de vida.

Por muito tempo, esse tema foi tratado de maneira simplista. De um lado, trabalhadores defendendo mais equilíbrio e tempo de descanso. Do outro, setores econômicos temendo aumento de custos e perda de competitividade.

Mas talvez seja justamente o turismo um dos setores que mais nos obriga a amadurecer esse debate.

A atividade turística é, essencialmente, feita de pessoas. Não existe experiência turística sem acolhimento, hospitalidade, atendimento, gastronomia, cultura e cuidado humano. E todos esses serviços dependem diretamente de profissionais que convivem com jornadas intensas, trabalho aos finais de semana e escalas exaustivas.

Defender melhores condições de trabalho não significa ignorar os desafios operacionais do setor. Da mesma forma, reconhecer as dificuldades empresariais não pode significar naturalizar modelos que comprometem saúde mental, convivência familiar e qualidade de vida.

Na Amazônia, essa discussão ganha uma dimensão ainda mais sensível. O turismo na região não é apenas uma atividade econômica. É também instrumento de desenvolvimento regional, valorização cultural, geração de renda e fortalecimento de comunidades locais.

Quando falamos em turismo de natureza, comunitário ou de experiência, falamos diretamente sobre pessoas: trabalhadores da hotelaria, cozinheiras, artesãos, condutores, pequenos empreendedores e profissionais que sustentam diariamente a cadeia turística amazônica.

Também é importante lembrar que grande parte da força de trabalho do turismo é composta por mulheres, muitas delas responsáveis simultaneamente pela renda familiar, pelo cuidado dos filhos e pelo trabalho doméstico invisível. Discutir jornadas mais equilibradas também significa discutir permanência, dignidade e oportunidades para essas mulheres.

Não há turismo sustentável baseado em exaustão permanente.

A ampla aprovação da proposta na Câmara demonstra que o tema deixou de ser uma discussão restrita a grupos específicos e passou a integrar o centro do debate sobre o futuro do trabalho no Brasil.

Com a proposta agora em debate no Senado, torna-se ainda mais importante discutir os caminhos dessa transição de forma responsável, com diálogo, previsibilidade e segurança para trabalhadores e empreendedores. Pequenos negócios, hotéis, bares e restaurantes precisam de adaptação gradual e planejamento.

Mas também é preciso compreender que produtividade não pode mais ser medida apenas pelo número de horas trabalhadas.

No turismo, qualidade importa. Atendimento importa. Experiência importa.

Além disso, existe um aspecto pouco explorado nessa discussão: pessoas com mais tempo de descanso também consomem lazer, cultura e turismo. E, na Amazônia, isso pode representar ainda mais circulação econômica dentro dos próprios territórios.

Falamos de uma região pulsante em cultura, gastronomia, música, rios, ilhas, festividades tradicionais e experiências únicas. Ter mais tempo para viver a própria cidade, frequentar espaços culturais e conhecer destinos próximos também fortalece pertencimento, identidade e desenvolvimento econômico.

Mais tempo livre pode significar mais gente ocupando mercados, feiras, restaurantes, hotéis, eventos culturais e experiências turísticas locais, movimentando diretamente pequenos empreendedores e toda a economia criativa amazônica.

O turismo também cresce quando as pessoas conseguem viver melhor os próprios territórios.

O verdadeiro desafio não está em escolher entre economia e dignidade. Está em construir modelos capazes de conciliar competitividade, produtividade e qualidade de vida.

O turismo brasileiro pode, e deve, fazer parte dessa construção.

Ana Carla Lopes

Ex-secretária executiva do Ministério do Turismo (2023–2026)