Irregularidade de vistos pode forçar repetição de 133 jogos na Holanda

Crise jurídica envolve atletas que perderam a cidadania local ao se naturalizarem por outros países e atuaram sem visto de trabalho.

Publicado em 30 de abril de 2026 às 13:51

 PSV campeão holandês da temporada 2025/26.
 PSV campeão holandês da temporada 2025/26. Crédito: ANP via Getty Images

A apenas três rodadas do fim da temporada, o Campeonato Holandês (Eredivisie) enfrenta uma crise que pode forçar a repetição de 133 partidas. O escândalo, apelidado de "Paspoortgate", surgiu após a descoberta de que diversos jogadores atuaram de forma irregular por não possuírem visto de trabalho.

A raiz da polêmica está na legislação da Holanda, que estabelece que qualquer cidadão nascido no país abdica automaticamente de seu passaporte local ao se naturalizar por outra nação. No contexto do futebol, profissionais que optaram por defender seleções como as do Suriname, Indonésia, Cabo Verde, Togo e Trinidad e Tobago tornaram-se legalmente estrangeiros perante o Estado holandês. Para que pudessem continuar exercendo suas atividades profissionais em solo nacional, esses jogadores deveriam ter solicitado um visto de trabalho específico para cidadãos de fora da União Europeia ou da Suíça, procedimento que não foi realizado em diversos casos.

O origem para a crise jurídica foi uma ação movida pelo NAC Breda junto à Justiça após uma derrota por 6 a 0 para o Go Ahead Eagles. O clube, que luta contra o rebaixamento, acusou o adversário de escalação irregular do jogador Dean James, que nasceu na Holanda mas se naturalizou indonésio. O advogado do NAC defendeu na audiência preliminar que não se trata de uma questão subjetiva, mas do cumprimento de uma regra objetiva de elegibilidade que foi ignorada.

A dimensão do escândalo é grande e não se limita a um caso isolado, atingindo pelo menos 13 jogadores e oito clubes diferentes da elite nacional. Equipes tradicionais como Ajax e Feyenoord já se juntaram à ação judicial iniciada pelo NAC Breda, enquanto clubes como NEC e Groningen optaram por se antecipar aos tribunais, afastando preventivamente jogadores que perderam a cidadania europeia de seus elencos e treinamentos.

Diante da possibilidade real de ter que refazer 133 partidas, a presidente da Real Federação Holandesa de Futebol (KNVB), Marianne van Leeuwen, classificou o cenário como um potencial "caos". Segundo a dirigente, a eventual anulação de resultados decididos em campo para uma resolução nos tribunais representaria um duro golpe na imagem da Eredivisie, afetando mais da metade dos jogos da competição e quase todos os clubes participantes. A expectativa agora gira em torno das decisões judiciais que podem redefinir completamente a tabela de classificação e as zonas de rebaixamento e acesso às competições europeias.

Texto por Suellen Godinho, com supervisão de Cássio Leal.