Publicado em 14 de fevereiro de 2026 às 17:17
A francesa Gisele Pelicot, que se tornou símbolo da luta contra a violência sexual na Europa, afirmou que deseja encontrar o ex-marido na prisão para obter respostas que, segundo ela, ainda permanecem sem explicação. Dominique Pelicot foi condenado a 20 anos de reclusão, a pena máxima prevista no país para esse tipo de crime, após ser considerado culpado por estupro com agravantes, além de registrar e compartilhar imagens das agressões.>
Em entrevista à BBC, Gisèle relatou que, embora tenha enfrentado o julgamento publicamente, carrega questionamentos não resolvidos. Entre eles, a suspeita de que a própria filha do casal, Caroline, possa também ter sido vítima. Fotografias da jovem dormindo apenas com roupas íntimas foram encontradas no computador do pai. As explicações dadas por Dominique, segundo Gisèle, foram contraditórias e insuficientes. Para ela, o sofrimento imposto à filha é permanente. “Foi um tormento que não termina”, resumiu.>
O escândalo veio à tona de forma inesperada. Gisèle acompanhava o marido a uma delegacia, após ele ter sido flagrado filmando mulheres por baixo das saias em um supermercado. Durante o depoimento, policiais apresentaram a ela imagens extraídas de dispositivos eletrônicos apreendidos. Em uma das fotos, viu uma mulher desacordada, cercada por homens desconhecidos. A princípio, não se reconheceu. Pouco depois, compreendeu que era ela própria.>
As investigações revelaram que, ao longo de aproximadamente uma década, Dominique teria dopado a esposa para permitir que dezenas de homens a violentassem enquanto ela permanecia inconsciente. As agressões eram filmadas. Ao todo, foram contabilizados 92 estupros cometidos por 72 homens diferentes, embora parte deles não tenha sido identificada nas gravações.>
Mesmo diante da dimensão do caso, Gisèle optou por renunciar ao anonimato, direito comum às vítimas na França, e compareceu às audiências com o rosto descoberto. A decisão transformou o processo judicial em um marco simbólico no debate sobre consentimento, cultura do estupro e responsabilidade coletiva.>
Além da condenação pelas agressões contra a ex-esposa, Dominique também foi responsabilizado por produzir registros íntimos envolvendo a filha e duas noras. A sentença, anunciada em 19 de dezembro de 2024, encerrou o julgamento, mas não o impacto social do episódio.>
O reconhecimento internacional veio em seguida. A revista Time incluiu Gisèle entre as Mulheres do Ano, destacando sua postura como catalisadora de um movimento em apoio a sobreviventes de violência sexual.>
Hoje, longe de expressar ódio, ela afirma sentir-se traída e ultrajada. Ainda assim, sustenta que precisa olhar novamente para o homem com quem dividiu a vida para entender o que considera incompreensível.>