Trump assume que pressionou a Fifa para salvar jogador americano de suspensão na Copa

Atuação do presidente dos EUA abriu crise sem precedentes sobre a independência do futebol e gerou revolta internacional.

Publicado em 7 de julho de 2026 às 08:06

Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump
Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump Crédito: Redes Sociais/Instagram

O que era para ser apenas uma decisão de campo virou uma crise geopolítica que chacoalhou as estruturas da Copa do Mundo de 2026. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, confirmou publicamente que ligou para o mandatário da Fifa, Gianni Infantino, para pedir a revisão da expulsão do atacante norte-americano Folarin Balogun. O pedido surtiu efeito: em uma decisão inédita na história dos Mundiais, o Comitê Disciplinar da entidade suspendeu a punição automática do atleta, liberando-o para as oitavas de final.

A interferência direta da Casa Branca escancarou questionamentos sobre o peso do poder político americano nos bastidores do futebol e gerou forte revolta de federações internacionais.

Toda a confusão começou no jogo em que os Estados Unidos venceram a Bósnia e Herzegovina por 2 a 0. Balogun, que marcou um dos gols, acabou expulso no segundo tempo pelo árbitro brasileiro Raphael Claus após o VAR flagrar uma entrada dura no tornozelo do zagueiro rival. Pelas regras do torneio, o cartão vermelho deveria tirá-lo obrigatoriamente do jogo seguinte.

A punição irritou a cúpula do governo americano; antes mesmo de Trump agir, o secretário de Estado, Marco Rubio, já tinha vindo a público criticar a arbitragem e sugerir que o Mundial deveria ter um recurso contra expulsões.

Ao confirmar o telefonema a Infantino, Trump tentou minimizar o tom de cobrança e elogiou a liberação do jogador, afirmando que uma suspensão ali "deixaria uma grande mancha" na competição. Ele ainda disparou contra o juiz brasileiro, classificando a expulsão como "bem suspeita". A acusação do político uniu a CBF e a Conmebol, que emitiram notas oficiais em defesa de Raphael Claus, exaltando sua trajetória ética, honestidade e competência internacional, além de rebaterem qualquer insinuação de má-fé por parte do árbitro.

A manobra dos bastidores gerou indignação imediata na Europa. A Federação Belga dversária dos EUA nas oitavas protestou duramente, alegando que a decisão atropelou o princípio básico do fair play. O técnico da Inglaterra, Thomas Tuchel, também ironizou o critério da Fifa ao questionar como uma decisão revisada por três pessoas no VAR poderia ser simplesmente anulada por vias políticas.

Embora o Artigo 27 do Código Disciplinar da Fifa preveja a suspensão parcial de penas, o mecanismo nunca havia sido usado para ignorar um cartão vermelho em plena Copa do Mundo. Do outro lado, Infantino se defendeu dizendo que conversa rotineiramente com chefes de Estado e que repassou o pedido aos órgãos jurídicos da entidade, que, segundo ele, decidiram de forma autônoma.

O episódio joga luz sobre as críticas de que o Mundial de 2026 está excessivamente moldado pelos interesses de Washington. Apesar de ser uma sede tripla com México e Canadá, os EUA concentram 75% dos jogos e ditam regras rígidas que já causaram polêmica, como a deportação do árbitro somali Omar Artan e as restrições de visto que forçaram a seleção do Irã a se concentrar em solo mexicano. A própria Fifa adotou práticas do mercado americano que tornaram os ingressos desta Copa os mais caros da história.

No fim das contas, a pressão do homem mais poderoso do mundo não bastou para mudar o destino da bola. Mesmo com Balogun escalado graças à liminar, os Estados Unidos foram atropelados pela Bélgica por 4 a 1 e acabaram eliminados nas oitavas de final, repetindo o desempenho do país na Copa de 1994. Trump, que acompanhou tudo de longe e não foi a nenhum estádio do torneio, viu a campanha americana ruir antes mesmo de chegar às quartas.