Trump endurece discurso, exalta economia e provoca oposição em pronunciamento histórico

Fala mais longa do Estado da União mistura promessa de paz, ameaça ao Irã, embates sobre imigração e defesa de tarifas globais.

Publicado em 25 de fevereiro de 2026 às 08:42

Donald Trump, presidente dos Estados Unidos.
Donald Trump, presidente dos Estados Unidos. Crédito: Daniel Torok/White House

Em um discurso marcado por tom combativo e forte polarização, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, fez nesta terça-feira (24), o mais longo pronunciamento da história do Estado da União. Ao longo de 1 hora e 48 minutos, ele defendeu sua política econômica, elevou o tom contra o Irã, falou sobre a captura de Nicolás Maduro e protagonizou momentos de tensão com parlamentares democratas, especialmente ao abordar imigração.

A fala ocorreu em um momento delicado para o governo. Pesquisas apontam queda na aprovação presidencial, enquanto aliados demonstram preocupação com os impactos nas eleições legislativas de meio de mandato, marcadas para 3 de novembro. Todo o plenário da Câmara será renovado, e um terço do Senado estará em disputa. Hoje, os republicanos controlam as duas Casas, mas levantamentos indicam risco de perda de pelo menos uma delas.

Economia como vitrine

Logo na abertura, Trump afirmou que os Estados Unidos atravessam uma fase de recuperação e crescimento. Disse que herdou um país em crise após o governo de Joe Biden, mas que promoveu uma transformação histórica. Segundo ele, a inflação está cedendo, a renda dos trabalhadores aumentou e a produção de energia atingiu níveis recordes.

O presidente também destacou o pacote aprovado em julho que reduziu impostos, apesar do aumento da dívida nacional. Criticou duramente os democratas que votaram contra a proposta e acusou a oposição de defender impostos mais altos.

Outro ponto de embate foi a decisão da Supreme Court of the United States que derrubou tarifas impostas com base em uma lei de emergência da década de 1970. Em resposta, Trump anunciou uma taxa global de 15% sobre produtos importados e afirmou que a medida pode substituir o atual modelo de imposto de renda, além de proteger a indústria americana e evitar conflitos internacionais.

Pressão sobre o Irã

A política externa ocupou espaço central no discurso. Trump voltou a acusar o Irã de buscar armas nucleares e de desenvolver mísseis com capacidade de atingir os Estados Unidos e a Europa. Segundo ele, o governo americano prefere resolver o impasse por meio da diplomacia, mas não permitirá que o país obtenha armamento nuclear.

O presidente relembrou ataques realizados pelas forças americanas em junho de 2025 contra instalações iranianas que, segundo ele, faziam parte de um programa nuclear. Afirmou ainda que Teerã foi alertada a não retomar as atividades, mas voltou a perseguir ambições nucleares.

“Nossa prioridade é a paz, mas não hesitaremos diante de ameaças”, declarou, ao defender o fortalecimento das Forças Armadas.

América Latina e hemisfério

Ao falar sobre o continente americano, Trump mencionou a captura de Nicolás Maduro no dia 3 de janeiro. O ex-líder venezuelano foi levado para Nova York, onde aguarda julgamento. O presidente classificou a operação como uma vitória para a segurança nacional e afirmou que ela abre caminho para um novo momento na Venezuela.

Ele declarou ainda que mantém diálogo com a presidente interina venezuelana, Delcy Rodríguez, com foco em acordos econômicos. Durante o discurso, destacou a libertação de presos políticos e apresentou ao Congresso um ex-detento que reencontrou a família.

Trump também disse que está restaurando o protagonismo dos Estados Unidos no hemisfério ocidental para combater violência, tráfico de drogas, terrorismo e interferências externas. No cenário global, afirmou ter encerrado oito guerras, celebrou o cessar-fogo na Faixa de Gaza e disse trabalhar para pôr fim ao conflito entre Rússia e Ucrânia.

Imigração e tensão no plenário

O momento mais tenso ocorreu quando o presidente abordou a imigração. Ele afirmou que a entrada irregular de estrangeiros estaria associada ao aumento da criminalidade e relatou casos de vítimas americanas. Em meio às críticas, parlamentares democratas reagiram. A deputada Ilhan Omar, de Minnesota, chegou a chamá-lo de mentiroso durante o discurso.

Trump propôs a chamada “Lei Dalilah”, em referência a Dalilah Coleman, criança que sobreviveu a um acidente envolvendo um motorista imigrante irregular, segundo relato do presidente. A proposta proibiria estados de conceder carteiras de motorista a pessoas em situação irregular.

Ele também defendeu a exigência de documento de identidade e comprovação de cidadania para votar e pediu o fim das chamadas cidades-santuário, que limitam a cooperação com autoridades federais de imigração. Ao provocar a oposição, questionou quem no plenário defendia priorizar cidadãos americanos. Democratas permaneceram sentados.

Apesar do discurso duro, o presidente afirmou que os Estados Unidos continuarão abertos a imigrantes que entrem legalmente e contribuam com o país.

Com quase duas horas de duração, Trump superou o recorde anterior de Bill Clinton, que em 2000 falou por pouco mais de 1 hora e 28 minutos. A tradição do Estado da União começou em 1790 com George Washington e, ao longo dos séculos, passou por mudanças, incluindo períodos em que a mensagem era enviada por escrito, como decidiu Thomas Jefferson.