Vaticano publica documento que critica "cura gay" e defende maior acolhimento a pessoas LGBTQIAPN+

Relatório elaborado no âmbito do Sínodo sobre a Sinodalidade reúne testemunhos de fiéis, aponta danos das terapias de conversão e pede comunidades mais inclusivas

Publicado em 6 de maio de 2026 às 23:18

(Praça São Pedro - Vaticano)
(Praça São Pedro - Vaticano) Crédito: Vatican News

O Vaticano divulgou nesta terça-feira (5), um documento inédito que aborda a inclusão de pessoas LGBTQIAPN+ na Igreja Católica e faz críticas contundentes às chamadas terapias de conversão, conhecidas popularmente como "cura gay". O texto reconhece o sofrimento de fiéis homossexuais e defende a ampliação de práticas de acolhimento nas comunidades católicas.

Elaborado por um grupo de estudos vinculado ao Sínodo sobre a Sinodalidade – processo convocado pelo papa Francisco para repensar o funcionamento e o diálogo interno na Igreja –, o relatório reúne reflexões teológicas e relatos anônimos de fiéis. O objetivo é discutir temas considerados sensíveis na doutrina católica, como a vivência da fé por pessoas que sentem atração pelo mesmo sexo.

Intitulado "Critérios teológicos e metodologias sinodais para o discernimento compartilhado de questões doutrinárias, pastorais e éticas emergentes", o documento sustenta que a Igreja deve enfrentar essas questões a partir da escuta ativa e da experiência concreta de seus membros, em vez de recorrer apenas a princípios doutrinários abstratos.

Danos das terapias de conversão

Um dos pontos centrais do relatório é o reconhecimento de que a comunidade cristã pode ser, ao mesmo tempo, um espaço de "cura e inclusão" e um ambiente que reproduz exclusão e sofrimento. O texto afirma que muitos fiéis LGBTQIAPN+ convivem com "solidão, angústia e estigma" dentro da própria Igreja, mencionando episódios de "homofobia e transfobia" em ambientes religiosos.

"Trata-se de pessoas que frequentemente se sentem incompreendidas, marginalizadas e excluídas", diz o documento.

Com base em testemunhos colhidos em diferentes países, o relatório critica diretamente as terapias de conversão, práticas que buscam "corrigir" a orientação sexual de indivíduos. Um dos depoimentos, de um homem gay de Portugal, descreve os efeitos devastadores dessas tentativas:

"Elas deixaram cicatrizes e afetaram diretamente minha relação com a fé", relatou o fiel, segundo o texto.

O documento afirma que esse tipo de intervenção atingiu a dignidade dos fiéis e provocou o afastamento de muitos da vida espiritual. O mesmo depoimento menciona orientações contraditórias recebidas dentro da Igreja, incluindo o conselho de que o homem se casasse com uma mulher para alcançar "equilíbrio emocional" – sugestão que ele considerou inadequada por envolver terceiros em uma relação sem autenticidade.

Trajetórias de reconstrução

Apesar das experiências negativas, o relatório também apresenta relatos de superação. O homem português, por exemplo, encontrou acolhimento em comunidades católicas mais abertas, o que lhe permitiu retomar a espiritualidade e reduzir conflitos internos. Segundo ele, pequenas atitudes de escuta e respeito tiveram impacto significativo, inclusive na relação com seus familiares.

Outro testemunho, vindo dos Estados Unidos, traz uma perspectiva diferente. Após anos de conflitos e tentativas de se adaptar a padrões heterossexuais, o fiel passou a compreender sua sexualidade como parte integrante de sua identidade – não como um problema. Ele descreve essa dimensão como um "presente de Deus".

O documento destaca que esse estadunidense também teve contato com grupos ligados à terapia de conversão no passado, mas considera essas experiências marcadas por sofrimento emocional e pouca eficácia. Atualmente, ele vive um relacionamento homoafetivo estável e afirma sentir-se plenamente inserido na vida religiosa, graças ao envolvimento com comunidades mais acolhedoras.

Desafios e resistências

Com base nesses relatos, o documento faz críticas diretas às iniciativas que buscam impor a heterossexualidade como condição para a vivência da fé, classificando essas práticas como problemáticas. O texto também aponta como preocupante a pressão para que pessoas LGBTQIAPN+ se adequem a modelos tradicionais de relacionamento.

O relatório reconhece, no entanto, que ainda há resistência significativa em diferentes setores da Igreja. Os testemunhos indicam que episódios de discriminação continuam recorrentes, o que reforça, segundo o texto, a necessidade de ampliar o diálogo e aprofundar as práticas pastorais voltadas à inclusão.

Ao final, o documento defende que a Igreja avance no reconhecimento da dignidade das pessoas LGBTQIAPN+ e invista em escuta ativa, acolhimento e acompanhamento pastoral, levando em conta as experiências concretas dos fiéis. "O ambiente eclesial pode se tornar um lugar onde todas as pessoas, independentemente de sua orientação sexual ou identidade de gênero, possam sentir que sua fé é respeitada e incentivada", diz um trecho.

Repercussões

A divulgação do documento ocorre em meio a um pontificado marcado por gestos de aproximação do papa Francisco em relação à comunidade LGBTQIAPN+. Embora a doutrina católica ainda considere atos homossexuais como "intrinsecamente desordenados", o pontífice já manifestou publicamente que pessoas homossexuais merecem respeito e acolhimento – mais recentemente, ao autorizar bênçãos para casais do mesmo sexo em determinadas circunstâncias (declaração "Fiducia Supplicans", de 2023).

Organizações católicas progressistas celebraram o relatório como um passo importante, enquanto setores conservadores da Igreja criticaram o documento por considerá-lo ambíguo e potencialmente indutor de confusão doutrinária.

O Vaticano não informou se o texto servirá de base para mudanças práticas nas orientações pastorais globais ou se será encaminhado para discussão em assembleias sinodais futuras.

Com informações do portal Metrópoles