Publicado em 28 de outubro de 2026 às 15:47
O Brasil pode enfrentar um dos episódios de El Niño mais intensos desde o início dos registros, em 1950, com risco de chuvas extremas no Sul e agravamento da seca no Norte. O alerta foi apresentado nesta terça-feira (27) pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), na primeira reunião conjunta do Conselho Temático de Infraestrutura (COINFRA) e do Conselho Temático de Meio Ambiente e Sustentabilidade (COEMAS), da Confederação Nacional da Indústria (CNI), em Brasília.>
Segundo o Painel El Niño 2026–2027, há 95% de probabilidade de que o fenômeno alcance intensidade muito forte entre outubro e dezembro, com efeitos que podem se estender a 2027. O coordenador-geral de Ciência do Clima do MCTI, Márcio Rojas da Cruz, informou que anomalias de temperatura das águas do Pacífico Equatorial chegam a 3,6°C em algumas áreas, sinalizando um episódio excepcional.>
O presidente do COEMAS, Marcelo Thomé, alertou que as consequências alcançam o abastecimento de água, a geração hidrelétrica, os custos de energia e a integridade de rodovias, ferrovias e hidrovias. “Para a indústria e para a infraestrutura, os efeitos vão muito além do clima”, afirmou. Segundo ele, os prognósticos devem orientar investimentos em adaptação.>
Na Amazônia, a redução das chuvas pode diminuir o nível dos rios e comprometer o transporte de pessoas e mercadorias. O presidente do COINFRA e da Federação das Indústrias do Estado do Pará (FIEPA), Alex Dias Carvalho, defendeu que a prevenção considere, ao mesmo tempo, competitividade, segurança das populações e preservação ambiental.>
“A navegabilidade não tem apenas uma dimensão econômica, mas também social e ambiental. Por isso reiteramos às autoridades competentes a decisão pela dragagem do rio Tapajós que, apesar de todos os dados apontando para a crise, foi negligenciada ”, destacou. Ele lembrou que restrições ao transporte fluvial pressionam o modal rodoviário, elevam os custos logísticos e podem aumentar as emissões de gases de efeito estufa. Para Carvalho, é necessária uma agenda para as hidrovias, sustentada por ciência e planejamento. “Ampliar a infraestrutura e garantir a continuidade da navegação também contribuem para os compromissos de descarbonização do país”, afirmou.>
Os riscos vão além do El Niño. Estudos para a próxima Comunicação Nacional do Brasil sobre mudanças climáticas já apontam municípios com aquecimento médio superior a 2°C em relação ao período pré-industrial. Em cenários futuros de emissões elevadas, a alta poderá alcançar 4°C em grande parte do país. “Os eventos extremos são a realidade hoje e vão ficar mais intensos e mais frequentes”, advertiu Márcio.>
O diretor de Relações Institucionais da CNI, Roberto Muniz, defendeu uma coalizão entre setor produtivo, governo e comunidade científica para transformar indicadores climáticos em ações preventivas. “Nós temos os números, os indicadores, nós temos as consequências e a gente não consegue antecipar esse processo”, observou.>
Muniz citou os desafios das hidrovias amazônicas, especialmente do rio Tapajós, para defender soluções que conciliem logística, meio ambiente e consulta a povos indígenas e comunidades tradicionais. Segundo ele, a integração entre infraestrutura e sustentabilidade permite construir respostas mais consistentes, sobretudo na Amazônia.>
Efeitos sobre alimentos, emprego e transporte>
O chefe de Pesquisa Econômica Regional do Banco do Brasil, Júlio Lopes, apresentou os possíveis impactos econômicos de um Super El Niño. Seu cenário-base projeta queda de 2,5% no PIB da agropecuária em 2027. Como comparação, citou a retração de 5,2% registrada em 2016, durante outro episódio intenso do fenômeno.>
O Matopiba, que reúne áreas do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, inspira maior preocupação: calor acima da média e chuvas abaixo do esperado podem prejudicar as safras de soja e milho. Novembro e dezembro serão decisivos para dimensionar os efeitos sobre a produção. No Centro-Oeste, mais chuva e a umidade do solo podem atenuar perdas.>
Lopes também destacou os riscos à navegação no Arco Norte, corredor estratégico para o escoamento de grãos. As secas de 2023 e 2024 restringiram o transporte hidroviário e elevaram os custos logísticos. Apesar dos níveis atualmente mais favoráveis, novas restrições são possíveis.>
No Sul, a preocupação é com as chuvas intensas, alagamentos e destruição de infraestrutura. As enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul evidenciaram como desastres afetam empregos, empresas e serviços, exigindo meses de recuperação.>
Ao encerrar a reunião, o presidente do COINFRA e da FIEPA, Alex Dias Carvalho, destacou a importância da integração entre infraestrutura e sustentabilidade como caminho para recuperar a competitividade da indústria brasileira. “Hoje demos um passo muito importante ao demonstrar que agendas distintas podem convergir para um objetivo comum: o desenvolvimento do Brasil. Precisamos avançar na infraestrutura com respeito às questões socioambientais, sem permitir que a sustentabilidade seja utilizada como pretexto para criar barreiras ao desenvolvimento”, afirmou.>