Automedicação em pessoas idosas: um risco silencioso

Essa prática comum entre pessoas de mais idade pode comprometer a saúde e a autonomia, e deve ser observada com atenção por familiares e cuidadores

Publicado em 26 de janeiro de 2026 às 10:12

Automedicação em pessoas idosas: um risco silencioso - 
Automedicação em pessoas idosas: um risco silencioso -  Crédito: Divulgação

A automedicação é uma prática comum entre pessoas idosas e, embora muitas vezes pareça uma solução rápida e inofensiva, pode comprometer a saúde, a autonomia e até a segurança. Por isso, exige atenção cuidadosa de familiares, profissionais de saúde e cuidadores.

A cena é conhecida: um comprimido para dor aqui, um chá “natural” ali, um anti-inflamatório recomendado por um vizinho. Para muitos idosos, esse hábito surge da tentativa de aliviar sintomas cotidianos, mas pode gerar consequências graves. É o caso de Dona Doralice Lima Roberto, de 89 anos, diagnosticada com demência mista (Alzheimer e vascular) e portadora de múltiplas comorbidades, como glaucoma, osteoporose, hipertensão arterial, insuficiência cardíaca, ansiedade e depressão. Ela é acompanhada por uma geriatra e pelo médico da família de sua UBS.

Sua rotina inclui o uso contínuo de vários medicamentos: colírios, suplementação vitamínica, três anti-hipertensivos, uma estatina, dois medicamentos para o quadro cognitivo, um antipsicótico, dois ansiolíticos e um para insônia. “Quando surgem intercorrências, mais medicações são acrescentadas, o que exige de nós, cuidadoras, atenção redobrada”, relata uma das filhas.

Para evitar erros, as três irmãs criaram um sistema rigoroso de organização, com uma tabela contendo nome, dosagem, horários e observações dos medicamentos, afixada na geladeira e replicada em versões digitais e impressas. Todos os frascos ficam em uma caixa organizadora, fora do alcance da mãe e de crianças. “Sempre que uma de nós precisa sair, repassamos um relatório à outra sobre o que foi administrado, se houve esquecimento ou mudança. A comunicação é essencial”, reforçam.

O caso de Dona Doralice ilustra como a polifarmácia, que é o uso simultâneo de cinco ou mais medicamentos, exige conhecimento e vigilância. Segundo Izabela Fuentes, geriatra e professora da Afya Faculdade de Ciências Médicas de Abaetetuba, os riscos para idosos vão muito além dos efeitos colaterais esperados. “A automedicação pode desencadear interações perigosas, mascarar sintomas de doenças graves e precipitar internações evitáveis. Como o organismo do idoso tem alterações fisiológicas próprias do envelhecimento, cada novo medicamento deve ser visto com cautela”, alerta a especialista.

Com o envelhecimento, o corpo passa por mudanças que influenciam a absorção, distribuição, metabolismo e excreção dos medicamentos. O aumento do pH gástrico, a redução da motilidade intestinal e a diminuição das células de absorção podem alterar o início de ação dos fármacos. A modificação na composição corporal (com maior proporção de gordura e menor quantidade de água) muda o volume de distribuição dos medicamentos. Além disso, o fígado metaboliza mais lentamente e os rins filtram menos, aumentando o risco de acúmulo de substâncias e intoxicação. “Doses consideradas seguras para adultos jovens podem ser nocivas para um idoso. A fragilidade, a presença de múltiplas doenças e a utilização de vários medicamentos potencializam essas vulnerabilidades”, explica Fuentes.

Além disso, os receptores também ficam menos responsivos, os mecanismos homeostáticos se tornam mais lentos e o risco de efeitos exagerados aumenta. Isso explica, por exemplo, por que idosos apresentam mais hipotensão com anti-hipertensivos, mais sedação com psicotrópicos e maior sensibilidade aos efeitos anticolinérgicos, como confusão e constipação.

Entre os medicamentos que podem causar danos quando usados sem orientação médica estão os anti-inflamatórios, capazes de provocar sangramentos digestivos, prejudicar a função renal e elevar a pressão arterial. Sedativos e calmantes, por sua vez, aumentam a probabilidade de quedas, delírio e piora cognitiva. Além disso, antialérgicos antigos, antivertiginosos, antibióticos e até fitoterápicos podem desencadear interações graves, resultando em sangramentos, arritmias e episódios de confusão mental.

Vale destacar que muitos desses fármacos constam nos Critérios de Beers, referência internacional sobre medicamentos potencialmente inapropriados para idosos. Além disso, fitoterápicos, suplementos e vitaminas raramente são mencionados espontaneamente pelos pacientes, por isso o médico deve perguntar ativamente sobre seu uso. Apesar de naturais, esses produtos podem causar interações importantes e até comprometer tratamentos essenciais. Exemplos como ginkgo biloba, erva-de-são-joão, óleo de peixe e vitamina E podem aumentar o risco de sangramento, interferir em antidepressivos, elevar a pressão arterial ou descompensar o diabetes.

O impacto da automedicação é ainda maior em idosos com doenças crônicas.

“Há medicamentos que, ao serem usados de forma inadequada, reduzem a eficácia de remédios fundamentais para controlar a hipertensão, o diabetes, a insuficiência cardíaca e as demências, aumentando o risco de agravamento dessas doenças. Anti-inflamatórios, por exemplo, podem descompensar completamente um quadro cardíaco ou metabólico”, ressalta a geriatra.

Por isso, a prevenção envolve também diálogo constante com o médico, revisão periódica de todas as medicações em cada consulta e identificação precoce de sinais de alerta. “Sonolência excessiva, quedas, confusão, redução do apetite, constipação, desidratação, retenção urinária ou fraqueza súbita podem indicar efeitos adversos e devem ser avaliados com urgência”, orienta Fuentes.

Assim como no caso de Dona Doralice, um cuidado seguro inclui o uso de caixas organizadoras, listas atualizadas, descarte de frascos sem rótulo e vigilância rigorosa.

“Todo sintoma novo em um idoso deve levantar a suspeita de efeito medicamentoso. Essa é a pergunta que nunca pode faltar na prática clínica e no cuidado diário”, reforça a especialista.

Para a geriatra, o cuidado com os medicamentos é parte essencial do envelhecer com qualidade. “A automedicação parece algo simples, mas pode ser muito perigosa. Cuidar de um idoso é, também, revisar doses, simplificar esquemas, evitar medicamentos inapropriados e manter o diálogo permanente com a equipe de saúde. Prescrever para um idoso é sempre um ato de amor, responsabilidade e prudência”, conclui Izabela Fuentes.