Banco de Edir Macedo inflou captação em 1.130% usando proteção do FGC como escudo para fraudes

Investigação aponta que instituição oferecia retornos de até 140% do CDI em plataformas como XP, Itaú e Nubank para atrair bilhões de investidores mesmo operando no prejuízo.

Publicado em 24 de junho de 2026 às 09:30

Banco de Edir Macedo inflou captação em 1.130% usando proteção do FGC como escudo para fraudes
Banco de Edir Macedo inflou captação em 1.130% usando proteção do FGC como escudo para fraudes Crédito: Reprodução

O crescimento explosivo de uma aplicação financeira aparentemente vantajosa colocou o Banco Digimais, controlado pelo bispo Edir Macedo, na mira das autoridades. Uma operação da Polícia Federal deflagrada na última terça-feira (23), investiga como o saldo de Certificados de Depósito Bancário (CDBs) da instituição deu um salto impressionante de 1.130% em apenas oito anos, saindo de R$ 694 milhões em 2017 para R$ 8,5 bilhões em 2025. O avanço acelerado chamou a atenção da PF, que aponta indícios de gestão fraudulenta, manipulação de balanços contábeis e concessão ilegal de empréstimos.

A estratégia para atrair essa enxurrada de dinheiro consistia em oferecer rendimentos muito acima do que o mercado costuma praticar. Para atrair novos clientes enquanto a saúde financeira da empresa se deteriorava, o banco passou a disponibilizar títulos com taxas médias de 115,7% do CDI, chegando a picos de até 140% do CDI. Essas opções de investimento de alta rentabilidade eram distribuídas ao público de forma ampla por meio de grandes e conhecidas corretoras e instituições parceiras, como XP Investimentos, BTG Pactual, Nu Invest, Itaú Corretora, Banco Inter e Ágora.

O coração da denúncia apresentada pela Polícia Federal revela uma manobra de transferência de riscos para o sistema financeiro. Segundo os investigadores, os executivos do Digimais utilizavam o Fundo Garantidor de Créditos, a proteção oficial que ressarce investidores em até R$ 250 mil caso um banco quebre como uma espécie de salvo-conduto para mascarar rombos e captar recursos sem o devido lastro patrimonial.

O esquema funcionava de maneira parecida ao padrão já apurado em outras investigações do setor privado, como as que envolveram o Banco Master. Na prática, a diretoria captava bilhões do público para cobrir uma operação que operava no vermelho, sabendo que qualquer prejuízo final acabaria sendo empurrado para o sistema de proteção coletiva do mercado.

O desdobramento judicial da Operação Miragem trouxe medidas duras para a cúpula da instituição ligada ao fundador da Igreja Universal. Além de cumprir mandados de busca e apreensão para recolher provas, a Justiça deu sinal verde para a quebra dos sigilos fiscais de 18 pessoas envolvidas no caso e determinou o bloqueio de bens do próprio bispo Edir Macedo, enquanto os lucros apresentados pelo banco nos últimos anos seguem sendo detalhadamente auditados pelos peritos federais.