Publicado em 3 de junho de 2026 às 22:38
Estadão Conteúdo - Crianças vítimas de estupro deram à luz 188.769 bebês no Brasil entre os anos de 2015 e 2024, de acordo com dados de nascidos vivos do Ministério da Saúde. No período de dez anos, em média, a cada mil nascimentos, sete desses bebês foram gerados por meninas menores de 14 anos. Somente em 2024, ano mais recente com dados consolidados, 12.004 bebês nasceram de crianças de 10 a 14 anos - e outros três de menores de 10 anos.>
A legislação brasileira classifica como estupro de vulnerável qualquer ato sexual com menores de 14 anos. O crime tem pena prevista de oito a 15 anos de prisão. "Esses números nos assustam. A gente está diante de uma naturalização desse tipo de situação envolvendo crianças e adolescentes. É um número que reflete uma situação real que estamos vivendo em nosso País", avalia o sociólogo Cauê Martins, coordenador temático de infância e adolescência do Fórum Brasileiro de Segurança Pública>
Para os casos de estupro envolvendo menores de 14 anos, uma resolução do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda) permitia a realização do aborto legal em qualquer mês da gestação. "Uma criança de 14 anos não pode ser considerada mãe", afirma Martins. A resolução também autorizava o aborto quando houvesse risco à vida da gestante e em casos de anencefalia fetal.>
Na última terça-feira, 2, em uma sessão remota que durou 1 minuto e 40 segundos, o Senado aprovou um projeto de decreto legislativo (PDL) para suspender a resolução do Conanda - e dificultar o aborto legal em crianças. O texto do PDL, que havia sido aprovado na Câmara no ano passado, foi levado à votação no Senado em uma sessão esvaziada e sem debate entre os parlamentares.>
Segundo Cauê Martins, a suspensão da resolução poderá ser mais prejudicial para crianças e adolescentes de classes sociais mais baixas. "A gente tem que ponderar quais são as famílias que vão deixar de acessar esse direito (ao aborto legal). A depender da classe social que essas meninas façam parte, algumas vão continuar tendo acesso pela via privada e outras não. Isso precisa ser ressaltado: quem vai deixar de acessar o serviço", aponta.>
Martins explica que os números relacionados a bebês gerados por crianças vítimas de estupro podem ser ainda maiores, visto que os dados do ministério sobre nascidos vivos contemplam a idade da mãe no momento do nascimento e não da concepção. O levantamento do período de 10 anos mostra ainda que as meninas pardas foram as maiores vítimas, com 131.219 casos, ou seja, sete a cada dez. Entre as regiões do País, o Nordeste lidera, com quatro a cada dez nascimentos.>
Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2025 indicam que os três Estados com mais registros de estupro de vulnerável são, em números absolutos, São Paulo, Paraná e Pará. Juntos, eles concentraram 35% do total de estupros de meninas no País em 2024. O anuário, que também analisou a ocorrência dos crimes por idade, mostrou que as meninas de 13 anos são as mais vitimizadas e que, no ano passado, 61,3% das vítimas de estupro do País foram crianças com até 13 anos, o que equivale 51.677.>
"É preciso analisar também o principal local de ocorrência desses crimes, que é a residência, o ambiente familiar", destaca Martins. "Esse é um tipo de evidência que tem que se trazida para esse debate. É o mais incômodo de se tratar. O senso comum tem a impressão de que o crime é cometido em situações fora de casa, mas na maioria dos casos é cometido por alguém do convívio ou da família", aponta o pesquisador.>